domingo, 31 de agosto de 2014

Agradecimento aos nossos Ministros Extraordinários da Comunhão


Caríssimos irmãos e irmãs,
Graça e Paz!

Hoje em nossa Paróquia encerraremos o mês dedicado às vocações com a acolhida de novos Ministros Extraordinários da Sagrada Comunhão. Nosso paróquia se alegra pela profunda e consistente participação e protagonismo dos leigos!

Neste dia quero manifestar minha profunda gratidão a todos os srs.  e sras. que há algum tempo vem exercendo este ministério. Somos gratos pelo carinho, zelo de ternura e diligente preocupação pelo Senhor do Altar, da Igreja e de todos nós. É na vida de cada pessoa visitada que vemos os frutos de nosso ministério e vida cristã.

E quanto aos novos ministros, primeiramente agradeço a Deus pelo dom da vida de cada um e agradeço a cada um de vocês pela disponibilidade! Desejo, na oração e com gestos concretos que cada um possa crescer mais a partir deste novo ministério. Assim, todos progrediremos ainda mais no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo e na atenção aos irmãos, de modo especial aos que, na solidão dos seus lares, hospitais, experimentam o sofrimento, o abandono e a dor. Jesus-Eucaristia nas mãos de Jesus-Irmão, cura! Persigam esta meta como Missão, com “alegria”, porque esta é a alegria de Cristo. Participar da alegria de Cristo é ter a alegria completa! Assim, poderemos um dia ouvir as palavras do Bom e Supremo Pastor de Nossas vidas: "vinde benditos porque eu era um doente e você veio me visitar!"

Aos que já exercem há algum tempo desejamos que sempre seja reafirmada em cada coração aquela expressão dos discípulos do caminho de Emaus que sentiam o coração arder diante da presença de Cristo Jesus para que com o coração aquecido pela Palavra de Jesus possamos reconhecê-lo em cada irmão e irmã.

Que nosso Deus abençoe a todos e a todas as famílias hoje e sempre!

Agradecemos a Deus por nossos catequistas

Queridos amigos e amigos, irmãos e irmãs, Graça e Paz!

Nós temos a certeza de que são muitos, grandes e difíceis os desafios hoje de nossa catequese. Vivemos numa realidade que muitas vezes é contrária àquilo que anunciamos em nossa missão de levar e testemunhar a mensagem de Jesus Cristo. Mas temos a certeza de que não caminhamos sozinhos, somos assistidos pela grande catequista, a Virgem Santíssima.

Por isso, peço-lhe que a experiência do encontro com Jesus Cristo seja a força motivadora capaz de lhe trazer o encantamento por esse fascinante caminho de discipulado, cheio de desafios, mas que o faz crescer e acabam gerando profundas alegrias.

A catequese é uma educação da fé das crianças, dos jovens e dos adultos, a qual compreende especialmente um ensino da doutrina cristã, dado em geral de maneira orgânica e sistemática, com o fim de iniciá-los na plenitude da vida cristã. Ensina o Catecismo da Igreja Católica: "no centro da catequese encontramos essencialmente uma Pessoa, a de Jesus Cristo de Nazaré, Filho único do Pai...”(cf CIC 1992).

Catequista, acolha, neste dia, nosso afetuoso abraço de gratidão de nossa amada mãe Igreja, das vidas agradecidas pela sua presença na educação da fé de nossos catequizandos, crianças, adolescentes, jovens e adultos. Em sua ação se traduz, de uma forma única e original, a vocação da Igreja-Mãe que cuida maternalmente dos filhos que gerou na fé, pela ação do Espírito.


A finalidade definitiva da catequese é levar à comunhão com Jesus Cristo: só Ele pode conduzir ao amor do Pai no Espírito e fazer-nos participar da vida da Santíssima Trindade. Todo catequista deveria poder aplicar a si mesmo a misteriosa palavra de Jesus: 'Minha doutrina não é minha, mas Daquele que me enviou' (Jo 7,16) (CIC, 426-427).
Parabéns catequistas!

Poderíamos dizer muitas coisas, mas uma só é necessária: Deus lhe pague! E que a Força da Palavra continue a suscitar-lhe a fé e o compromisso missionário! Que a comunidade continue sendo o referencial da experiência do encontro com Cristo naqueles que sofrem, naqueles que buscam acolhida e necessitam ser amados, amparados e cuidados.

A ternura amorosa do Pai, a paz afável do Filho e a coragem inspiradora do Espírito Santo que cuida com carinho dos seus filhos e filhas, que um dia nos chamou a viver com alegria a vocação de catequista discípulo missionário, estejam na sua vida, na vida da sua comunidade hoje e sempre!

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Entre a Política e a Politicagem

A todos os que lerem esta nota, desejamos todas as alegrias vindas de Nosso Senhor Jesus!

Em todos os lugares da cidade ouvimos falar de política, em cima dos telhados, nos muros, nos carros, vemos sobre política. Vemos pessoas divididas pela campanha, alianças são feitas unindo antigos adversários e amizades antigas são desfeitas. 
 
Escutamos muitas pessoas dizerem que adoram política, mas é só olhar para o que acontece para percebermos que elas sequer sabem o que seja política, ou melhor, vivem no empobrecimento da verdadeira política. O ser humano é um ser político. E todos concordamos, mas precisaremos entender o que vem a ser política e para que serve? Poderia ser muito útil o pensamento de Aristóteles. Para ele, política é a forma de ciência mais suprema, a qual as outras ciências estão subordinadas e da qual todas as demais se servem numa cidade. A tarefa da Política é investigar qual a melhor forma de governo e instituições capazes de garantir a felicidade coletiva. Logo, o bem a ser buscado é o bem comum, o respeito aos direitos e a manutenção dos mesmos, e em nosso tempo, o olhar mais atento aos pobres e desvalidos.
 
Tomando por base essa pequena apresentação, vemos que aquilo que muitos chamam de política, não passa de politicagem que em nada se interessa pelo bem comum, reduzida e resumida a ataques pessoais e a busca cega pelo poder. Quando a política em sentido real é colocada em segundo plano, vemos o futuro comprometido pois a Democracia que é o poder exercido pelo povo, sob a autoridade do povo e em favor do mesmo povo, passa a ser o poder exercido por uma minoria, sendo autoridade sobre o povo e em favor de uma elite que se vê com autonomia para fazer o que quiser, como se não devesse nenhum tipo de satisfação, distanciada do povo! 
 
Desta politicagem, brota toda a forma de corrupção, desvios de verbas, compra de votos, arrogância por parte dos governantes, falta de interesse pelo futuro e presente da população e da própria cidade. Desta estrutura de politicagem, claramente estratificada em nosso Brasil é que nasce todo descaso e prepotência, que faz do povo massa de manobra. Então, muitos que dizem amar a política, amam apenas a politicagem que se tornou um meio de vida.
 
 Daí vem o outro lado da moeda: o POVO! É o povo que alimenta esse círculo, por meio de trocas de favores com candidatos, promessas de empregos, venda de votos. Desta maneira nada muda, porque quem alimenta a corrupção, jamais poderá exigir trabalho e respeito. Quem faz do voto uma mercadoria não tem direito a nada! Partindo de uma reta consciência não precisaremos de muito esforço para dizer que quem compra votos é corrupto e quem vende é cúmplice!
 
Estamos chegando à reta final da campanha e nos vemos preocupados porque projetos de governo, sobre educação, segurança, lazer, questões estruturais, trabalho, a questão da segurança e respeito à mulher, às crianças e idosos, o dilema e o desafio imposto pela violência e o uso de drogas deveria ter sido mais aprofundado! 
 
Temos questões sérias a serem tratadas e não podemos nos contentar com uma política que atenda apenas interesses midiáticos porque com isto, apenas mascaramos as verdadeiras necessidades. Há uma parcela de culpa do próprio povo que parece se contentar com tudo isso, no entanto, aos políticos, verdadeiramente conscientes, cabe a missão de elevar o  debate sobre seu presente e futuro e não manter velhos esquemas de promessas sem fundamentos e oferecimento de favores que servem apenas para manter o atraso e ineficiência!
 
Ao povo desejamos que encontre o verdadeiro discernimento para que emancipado, livre das amarras e sem indução, saiba escolher homens e mulheres verdadeiramente comprometidos com um futuro de transformação!

domingo, 24 de agosto de 2014

A Fé de Simão Pedro e a Igreja

Acredito que o grande vexame do Cristianismo no nosso tempo é sua divisão, vemos uma profunda incapacidade de diálogo, falta profundidade em muitos seguimentos que se apresentam como cristãos. Religião serve para religar as pessoas a Deus e entre si. Quando uma religião separa as pessoas, não serve a Cristo. Mas onde estará a Igreja? Onde estará a religião de Jesus? Voltemos então para a afirmação de Cristo dita a Pedro: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja”(cf Mt 16,13-19). Ora, se Cristo falou de “Minha Igreja” é justo perguntar: onde encontrar a Igreja de Cristo? Sobretudo em tempos tenebrosos no qual a memória do galileu vem sendo pervertida e transformada em cifras em muitas pregações e movimentos e seu caráter questionador passa a ser instrumento do status quo. Voltemos ao texto de Mateus que a liturgia apresenta hoje.
Antes o contexto: Jesus havia perguntado aos discípulos: “quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” Diante da variedade das respostas acerca desta entidade do imaginário hebreu, ele insistiu: “e vós quem dizeis que eu sou?” Simão Pedro tomou a palavra e disse: “Tu és o Cristo (messias), o Filho de Deus vivo”.  Jesus voltou-se para ele e disse: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne ou sangue que te revelaram isto, e sim o meu Pai que está nos céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado no céu, e o que desligares na terra será desligado nos céus”. Por hoje tentemos compreender o que significa Pedro (Pétros, em grego) e pedra (Pétra em grego).
O evangelho de João afirma que logo que Simão, este era seu nome de família Simeão, bar-Jona, que quer dizer, filho de Jonas, é apresentado a Jesus, conta que “ fitando-o, disse-lhe Jesus: “Tu és Simão, filho de Jonas; chamar-te-ás Kefa (que quer dizer pedra)” ( Jo 1,42). Ou seja, quer no masculino (pétrus), quer no feminino (pétra), o grego está a traduzir a palavra aramaica Kefa (Kyf = pedra nobre).
 Explico ao leitor(a) que até então a palavra “petros” nunca fora usada na cultura grega como nome ou sobrenome de pessoa. O evangelista João faz questão de frisar que Jesus  dá a Simão um novo nome “fitando-o”. Este “fitando-o” traduz um verbo grego (blépô) que significa ver profundamente, até o cerne. É como se Jesus mudasse o cerne de Simão. Assim como a palavra “Cristo” se tornou o vocábulo que identifica Jesus na missão a ele confiada pelo Pai, assim Kefas, Pétrus , Pedro, se tornou o indicativo da identidade mais profunda de Simão, o filho de Jonas.
Ao fitá-lo, Jesus leu nas profundezas de Simão o desígnio do Pai a respeito de seu lugar na nova comunidade, na Igreja que Jesus estaria a construir no decorrer da história. Alguns, talvez por pressentirem que a palavra de Jesus a Simão deveria se estender a seus sucessores, procuram diminuir a importância do episódio no que diz respeito a Pedro, afirmando que Cristo, quando fala  “sobre esta pedra edificarei minha Igreja”, estaria se referindo a si mesmo e não a Pedro: "Sobre esta Pedra", a fé que acabas de professar “construirei minha Igreja. O que é verdade”: a Igreja se constrói em Cristo, pela adesão à pessoa de Cristo.
 Mas acontece que Jesus diz, penetrando as profundezas do ser de Pedro: “Tu és Kefa, Petrus” e só depois: “sobre esta pedra...” Portanto entre a construção que Cristo fará da Igreja no decorrer da história e Pedro há uma relação íntima. É pela união com Ele, Cristo, pela fé, pelo batismo e pela Eucaristia, que a Igreja é edificada. Cristo é o fundamento, o rochedo invisível que alcançamos pela fé e ao qual somos unidos pela graça. Mas afirma Jesus, mudando o nome de Simão: “Tu és kefa, Pedra, Rocha”. Ou seja, para que a Igreja que Jesus construirá sempre de novo no curso da História - pois a Igreja é construção permanente de Cristo - possa ser identificada e ser uma e una, Cristo dá a Simão a missão de ser o sinal visível desta unidade e unicidade. Onde está a igreja de Cristo? Como identificá-la. Veja bem, é a fé em Cristo que faz a Igreja, mas a fé em  Cristo é aquela professada por Simão, a ele revelada pelo Pai, conforme afirma Jesus: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne ou sangue que te revelaram isto, e sim o meu Pai que está nos céus”. Neste sentido, negar o lugar de Pedro é negar a profissão de Fé em Cristo que constitui a Igreja e negar esta profissão de Fé é negar a própria Igreja. Não existe uma Igreja de Cristo sem esta profissão de Fé oriunda da convivência fraterna entre o Mestre e seus discípulos. Estão equivocados os que acreditam poder viver na Igreja sem o reconhecimento do papel da comunidade e dos apóstolos de Jesus.
Ser kefa, Rocha, é escolha do Pai, revelada a Jesus. O que faz o Apóstolo é sua profissão de fé. Quando em João Jesus diz: “Tu és Simão, o filho de jonas; chamar-te-ás Kefas, que quer dizer Pedra”( Jo 1,42). É como se Jesus dissesse: “eu te conheço bem e agora mudo teu destino, dou-te um nome novo: Rocha”. Simão se tornou desde então Simão-Rocha e, depois, simplesmente Kefas, Pedro. É natural, pois, que Pedro apareça nos evangelhos como líder do grupo dos doze.
A construção da Igreja é ação de Cristo através da história. A Igreja é construída por Ele hoje. Este é o sentido de sua afirmação com o verbo em futuro que indica ação permanente: “sobre esta pedra edificarei minha igreja”. Donde necessariamente a missão de Pedro dever continuar em seu sucesso. Neste sentido, desconhece as Escrituras ou propositalmente se nega o valor das Escrituras ao se falar de Igreja ao mesmo tempo em que se nega Simão, portador da profissão de Fé da qual brota a Igreja. Não é cristão verdadeiro o que não vê que a Igreja é uma construção constante dentro da História e caminha rumo à plenitude que não se encontra aqui. Vale ressaltar que daqui se entende que a Igreja identifique a si mesma como Povo de Deus a caminho.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Mariologia - Parte III




O Antigo Testamento há de ser considerado à luz do Novo Testamento, e vice-versa, pois constituem um só discurso de Deus aos homens. Acrescentamos que a Escritura Sagrada como tal há de ser relida à luz da Palavra Viva que a antecede e a acompanha. Com efeito, a Revelação de Deus aos homens foi feita primeiramente por via oral e só posteriormente foi escrita. Por isto a leitura católica da Bíblia sempre leva em consideração o entendimento que aos antigos intérpretes davam ao texto sagrado.

            Ora o paralelismo entre Eva e Maria ocorre já no século II, sob a pena de S. Justino (+ 165).

            “Entendemos que se fez homem por meio da Virgem, de sorte a extinguir a desobediência, oriunda da Serpente, por ali mesmo onde haveria começado. Eva era Virgem e incorrupta (Eva era virgem ao pecar, porque só depois do pecado teve relações com Adão, conforme Gn 4,1); concebendo a palavra da serpente, gerou a descendência da morte. A Virgem Maria, porém, concebeu na fé e alegria quando o anjo Gabriel lhe anunciou a boa nova de que o Espírito do Senhor viria sobre ela; a Força do Altíssimo a cobriria com sua sombra, de modo que o Santo que dela nasceria, seria o Filho de Deus... Da Virgem nasceu, pois, Jesus, de quem falam tanto as Escrituras... aquele por quem Deus destrói a serpente”.

            Note-se o paralelismo: Eva é portadora da desobediência e da morte; Maria, ao contrário, traz a fé e a alegria. Importante no texto é a observação: Deus quis resolver o impasse oriundo do pecado mediante os elementos mesmos que introduziram o pecado: o anjo (mau) falou à mulher infiel a Deus, o anjo Gabriel falou à mulher fiel a Deus; no primeiro caso, a mulher colabora para a morte; no segundo caso, a mulher (a nova Eva, a verdadeira Mãe da Vida) colabora para a vida.

            S. Irineu (+202) desenvolve o paralelismo: Parte da concepção de que o plano de Salvação não é simplesmente um conserto ou um reparo feito no projeto violado por Adão no paraíso; mas é um recomeçar desde as origens; nesse recomeçar cada qual dos elementos envolvidos na queda é chamado a desenvolver um papel de “recapitulação” para apagar o pecado, Deus quis voltar às origens do pecado e recomeçar a história com elementos correspondentes aos da queda: assim Jesus Cristo é o novo ou segundo Adão (Rm 5,14; 1Cor 15,45-49); a cruz de Cristo é a nova árvore do paraíso, e Maria é a nova Eva. Da mesma forma que Eva se seduziu para desobedecer a Deus, Maria se deixou persuadir a obedecer a Deus para ser ela – a Virgem Maria – a advogada de Eva, de sorte que o gênero humano, submetido à morte por uma Virgem, fosse dela libertado por uma Virgem, tornando-se contrabalançada a desobediência de uma Virgem pela obediência de outra.

            S. Epifânio de Salamina (Chipre), (+403), se faz, de novo, arauto do paralelismo:

            “Eva trouxe ao gênero humano uma causa de morte: por ela a morte entrou no mundo; Maria trouxe uma causa de vida; por ela a vida se estendeu a nós. Foi por isso que o Filho de Deus veio a este mundo: para que, onde abundou o pecado, superabundasse a graça. Onde a morte havia chegado, aí chegou a vida, para tomar seu lugar; e aquele mesmo que nasceu da mulher para ser nova vida, haveria de expulsar a morte, introduzida pela mulher. Quando ainda virgem no paraíso, Eva desagradou a Deus por sua desobediência. Por isto mesmo emanou da Virgem a obediência própria da graça, depois que se anunciou o advento do Verbo revestido de corpo, o advento da eterna Vida do céu”.

Conclusão


O título de Nova Eva é o primeiro título com o qual Maria Santíssima é venerada pela Tradição Cristã. É o título de maternidade – Mãe da Vida – em relação a Jesus, o Messias. Esta prerrogativa foi a primeira a ser definida por um Concílio Geral, ou seja, pelo Concílio de Éfeso em 431: Maria é Theotókhos, Mãe de Deus, na medida em que Deus se quis fazer homem. Deste título decorrem as demais prerrogativas de Maria Santíssima.

Vê-se que a consideração de Maria, desde as suas origens, tem caráter cristológica. Longe de ser independente de Cristo, é suscitada pela definição da identidade de Jesus Cristo. Assim a autêntica piedade Mariana está relacionada com a fé em Jesus Cristo.


A MÃE DO MESSIAS (Is 7,14; Mq 5,1-2)

ISAIAS 7,14

            Os antecedentes deste versículo são os seguintes:

            Em 930 deu-se o cisma de Israel, donde resultam o reino do Norte ou da Samaria e o reino do Sul ou de Judá. Este é o da dinastia de Davi, que tem as promessas de dar ao mundo o Messias, ao passo que o reino do norte é cismático.

            Por volta de 735 reinava em Judá Acaz (736-716), filho de Joatão e, por conseguinte, descendente de Davi. Ao Norte, o rei Facéia (737-732) da Samaria e o rei Rasin da Síria se coligaram para derrubar o pesado jugo da Assíria; queriam ampliar e fortalecer esta coligação, envolvendo nele o reino de Judá. Acaz, porém, recusou-se a entrar na campanha. Em conseqüência, os dois reis do Norte resolveram fazer-lhe a guerra; queriam depô-lo e colocar em seu lugar um sucessor, filho de Tabael, de origem não davídica; vencendo Judá, os dois reis abriram caminho para o Egito, um possível aliado, sempre disposto a combater os mesopotâmicos – assírios e babilônios.

            Ora o exército da Síria e da Samaria invadiu Judá, obrigando Acaz a se recolher em Jerusalém, ameaçada pelos adversários numa situação angustiante. Diz o texto sagrado:

            “Agitou-se o coração de Acaz e o coração de seu povo, como se agitam as árvores do bosque com o vento” (Is 7,2).

            A única saída para Acaz era pedir a intervenção do rei assírio Taglat-Falasar III (745-727), que não tardaria a atender. Todavia a política de alianças com povos estrangeiros era proibida a Judá, pois tais alianças acarretavam perigo de contaminação religiosa para o povo messiânico; (2Rs 16,7-10; 2Cr 28,16-20).

            Foi então que Deus enviou o profeta Isaías ao rei Acaz, para lembrar-lhe a “política da fé” ou a necessidade de confiar na Providência Divina: “Não temas nem te acovardes... Se não credes, não subsistireis” (Is 7,4-9). A fé devia ser o fundamento da existência do povo de Deus, este havia de se apoiar na palavra de Deus.

            Já que o profeta exigia de Acaz uma atitude de fé muito intensa, ofereceu ao rei um sinal, penhor da incolumidade do rei de Judá: “Pede para ti um sinal do Senhor teu Deus nas profundezas do abismo ou no alto do céu” (Is 7,11).

            Acaz não era fiel ao Senhor; mandara imolar seu filho aos deuses, “fazendo-o passar pelo fogo segundo os costumes abomináveis das nações que o Senhor expulsara de adiante dos filhos de Israel” (2Rs 16,3). Por isto recusou hipocritamente o sinal, como quem não quer tentar a Deus pedindo milagres; Is 7,12. Em conseqüência o profeta, em nome de Deus propôs o sinal:

            “Sabei que o Senhor mesmo vos dará um sinal: Eis que a jovem concebeu e dará à luz um filho, e por-lhe-á o nome de Emanuel” (Is 7,14).

            O anuncio é solene. Para entendê-lo, é preciso identificar quem seja esse Emanuel e quem seja a jovem mãe do Emanuel.

            Quem é o Emanuel? Isaías tem em vista, mediata ou imediatamente, o Messias. Este, sim, é a garantia de que a dinastia de Davi não será destronada; por causa do Messias, prometido a Davi e à sua descendência. É que Acaz não será desapossado da realeza; a casa de Acaz (que é casa da Davi) deverá permanecer incólume, porque a ela foi prometido o Messias como descendente de Davi. Esta interpretação é confirmada pela consideração, de Is 9, 5s onde aparece um Menino-Messias, que tem predicados divinos:

            “Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado. Traz o cetro do principado e se chama Conselheiro Admirável, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz. O seu glorioso principado e  a paz não tem fim, no trono de Davi e no seu reino, firmando-o e consolidado-o sobre o direito  e  sobre  a  justiça” Is 9, 5s).

            O título “Deus Forte” está reservado ao Senhor Javé em Is 45, 21: Dt 10,17; Jr 32,18; Ne 9,32.

            E quem é a mãe do Emanuel?

            São Mateus 1,23: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe dará o nome de Emanuel”.

            A virgindade da mãe do Messias põe em revelo o caráter extraordinário do seu parto. O filho dessa Virgem Mãe é especial dom de Deus aos homens, como a salvação é dom de Deus. A Bíblia apresenta o caso de outras mulheres que deram à luz em circunstâncias extraordinárias homens importantes da história da salvação.
           
            Isaías garante a Acaz a incolumidade do seu trono prometendo o nascimento do Emanuel ou do Messias, filho de mãe-virgem.  É a salvação a ser trazida em plenitude pelo Messias que assegura a salvação a Acaz sete séculos antes do Messias; a grande bênção do Deus-conosco exerce ação antecipada nos tempos de Acaz.

            Para entender bem o valor do sinal assim dado por Isaías, devemos ponderar o seguinte: estamos acostumados a ver a história, como algo que se desdobra do passado para o futuro; é uma sucessão de eventos que dependem de um evento básico. No caso dos profetas, porém, requer-se outro modo de conceituar a história; em vez de se desdobrar do passado para o futuro, ela tem seu ponto de partida no futuro; ela depende do futuro e tem sua justificativa no futuro. Com outras palavras: a história sagrada tem seu centro no Messias ou em Jesus Cristo e á a partir deste que os eventos se sucedem e desenvolvem. Ainda: Davi é função de Jesus Cristo, é explicado por Jesus Cristo, em vez de Jesus Cristo ser função de Davi, explicável por Davi.

 

MIQUÉIAS 5,1-2


“E tu, Belém Efratá, pequena demais para ser contada entre os clãs de Judá, de ti sairá para mim aquele que deve governar Israel. Suas origens são de tempos antigos, de dias imensuráveis. Por isto Deus os abandonará até o tempo em que a parturiente dará à luz aquela que deve dar à luz. Então o que houver restado de seus irmãos, se reunirá aos filhos de Israel”.

            A própria tradição judaica, antes dos cristãos, viu nestes versículos uma profecia messiânica a anunciar a vinda de um novo Davi, que governaria com firmeza e segurança o povo de Deus. São Mateus dá a ver que tal profecia se cumpriu por ocasião do nascimento de Jesus (Mt 2,6); os próprios sacerdotes e escribas de Israel citaram Mq 5,1-2 para indicar o lugar em que o Messias deveria nascer (Mt 2,4-6).

            O profeta supõe Israel humilhado por seus inimigos. A humilhação, porém, não é definitiva. Na pequena cidade de Belém aquela que deve dar à luz um soberano, cheio do poder de Javé, que dará inicio à paz messiânica. – Alguns traços particulares são importantes:

            a) Mateus, em vez de dizer: “Belém,... pequena demais...”, prefere dizer: “Belém... não és o menor entre os clãs de Judá”. O Evangelista atribui aos sacerdotes e escribas de Herodes um modo de ler que exalta a cidade do Messias.  Mt 2,6

            b) As origens desse soberano são “de tempos antigos”. Há aqui uma referência aos primórdios mais remotos da casa de Davi, de acordo com a genealogia de Rt 4,18-22. Mas pode-se ver aí também uma alusão à origem transcendental ou divina desse Rei.
           
c) Chama a atenção a construção da frase de Miquéias: em vez de dizer simplesmente que virá o Grande Rei, o profeta escreve:  “... Até o momento em que dará à luz aquela que deve dar à luz”. Por que essa referência especial à Mãe do Rei-Messias? Essa Mãe já era conhecida dos contemporâneos de Miquéias através da pregação de Isaías; eis por que ela estaria em primeiro plano no vasto quadro da profecia messiânica, segundo Miquéias.

            d) Para se entender o nexo existente entre o Rei Messias e sua Mãe, convém lembrar que a rainha-mãe gozava de especial veneração nas cortes do Oriente antigo: na Assíria, na Babilônia, na Fenícia, no Egito... No Antigo Testamento a rainha-mãe era chamada gebirah, isto é, mãe do Senhor ou Grande Dama; (1Rs 15,13; 2Rs 10,13; Jr 13, 18; Jr 29,2).  O nome da rainha-mãe é freqüentemente mencionado pelo autor dos livros dos Reis.

            Percebe-se claramente a eminente posição da rainha-mãe, comparando entre si 1Rs 1,16-17  e  1Rs 2,19; no caso, a esposa de Davi, Betsabéia, vai pedir ao rei em favor de seu filho Salomão, ajoelhando-se diante do rei; no segundo caso o rei Salomão recebe a visita de sua mãe Betsabéia, ergue-se para ir ao seu encontro, prostrando-se diante dela e manda que ela se sente à direita do rei.

            Estes dados explicam que à expectativa do futuro Rei messiânico em Israel estivesse associado à figura honrosa da Mãe do Messias, como em Is 7,14 e Mq 5,1-2. A referência à venerável Mãe do Messias em ambos os casos está de acordo com os costumes das cortes orientais.



OUTROS TEXTOS DO ANTIGO TESTAMENTO

A ESPOSA DO CÂNTICO DOS CÂNTICOS

            Este é um livro de interpretação difícil. Os comentadores sugerem diversos modos de entender. O mais verossímil afirma que o Cântico apresenta o amor entre um jovem e uma jovem, desde o início do namoro até o contrato matrimonial, como tipo ou figura do amor do Senhor Deus pela Filha de Sion; esta é tida pelos Profetas como Esposa de Javé; Is 54,1-8; Is 62,4-5. Ora a  Esposa  de  Javé  no  Novo  Testamento  é a Igreja 2Cor 11,2; Ef 5,25-29, da qual Maria é a miniatura; em Maria a Igreja vê seu protótipo e considera o estado final que tocará a todos os justos. A alma de Maria Santíssima, cheia de graça, está unida ao Senhor Deus mais do que qualquer criatura. Daí poderem ser-lhe aplicados os dizeres que o autor do Cântico dirige à esposa neste livro. Maria sereia a esposa em sentido pleno.


A SABEDORIA PERSONIFICADA


            Os livros dos Profetas e do Eclesiástico personificam a Sabedoria. Dir-se-ia que os respectivos autores não a conceberam como simples atributo de Deus, mas como pessoas que assistiu a Deus na obra da criação. Tenham-se em vista Pr 8, 22-31 e Eclo 24, 3-21.

            A liturgia aplica estes textos a Maria Santíssima, como se fosse ela a Dama que fala ou que é apresentada nos textos citados.
           
            Os cristãos, autores do Novo Testamento (1Cor 1,24; Hb 1,3), desenvolveram os textos sapienciais antigos, vendo neles uma alusão à segunda Pessoa da Santíssima Trindade; uma vez revelada a existência de um só Deus em três Pessoas, a releitura cristã do Antigo Testamento descobriu aí insinuações do Verbo de Deus. – Ora Maria Santíssima foi a sede ou o tabernáculo da Sabedoria do Pai na qualidade de Mãe do verbo feito homem. Além disto, ela foi a obra-prima da Sabedoria Divina. Em conseqüência deste último relacionamento com a Sabedoria, os predicados podem ser “adaptados” a Maria.

 

OUTROS TEXTOS


            É comum na Liturgia das festas de Nossa Senhora rezarem-se os “Salmos de Sion” ou salmos que louvam a cidade de Jerusalém (Sl 43.48.86). A razão deste uso é que a cidade santa é considerada mãe do povo israelita ou mesmo mãe de todos os povos (São Paulo fala de Jerusalém celeste, que é nossa mãe em Gl 4,26). Aliás, o livro do Apocalipse funde entre si os conceitos de Esposa, Mãe e Cidade.

            “Vi descer do céu, de junto de Deus, a Cidade Santa, uma Jerusalém nova, pronta como esposa que se enfeitou para o seu esposo” (Ap 21,2).

            “Um dos sete anjos... disse-me: Vem! Vou mostrar-te a Esposa, a mulher do Cordeiro! – Ele então me arrebatou em espírito sobre um grande e alto monte, e mostrou-me a Cidade Santa, Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus” (Ap 21, 9-10).

            Ora, a Mãe de Deus e Mãe dos homens tem afinidade com a Jerusalém celeste, esposa e mãe, segundo a linguagem bíblica. Daí aplicarem-se a Maria os louvores que tocam a Jerusalém, segundo a praxe litúrgica católica.

            Merecem registro ainda duas grandes mulheres do Antigo Testamento, que desempenharam um papel importante há história da salvação do seu povo: Judite e Éster, a cada qual é dedicada um livro do Cânon católico.

            Judite é viúva, figura desprotegida e fraca do ponto de vista humano, que fortalecida pela oração e o jejum, realiza extraordinária façanha; matou um general Holofenes, que se fazia de grande “deus”. O procedimento de Judite foi lícito, dado que estava em situação de guerra; o do Holofemes é que foi falho, visto que se deixou obcecar pela beleza da mulher espiã. A Virgem Santíssima, na Liturgia, são aplicados os louvores tributados pelo povo a Judite:

            “Tu és a glória de Jerusalém! Tu és o supremo orgulho de Israel! Tu és a grande honra do nosso povo! Abençoada sejas tu pelo Senhor na sucessão dos tempos!” (Jt 15,9-10).

            Quanto a Éster, aparece também como figura frágil, pois é israelita na corte do rei Assuero, da Pérsia. Todavia, fortalecida pelo Senhor Deus, sabe encaminhar os acontecimentos de modo a livrar seu povo do grave perigo de extermínio planejado pelo Primeiro Ministro Amã; foi a grande intercessora junto ao rei em prol da sua gente. Ora Maria é a intercessora por excelência em favor dos homens; a história refere vários casos em que a oração de Maria Santíssima, solícita pelos fiéis, obteve de Deus a salvação; um dos episódios mais famosos é o da batalha naval de Lepanto, travada em 1571 pelas forças de Veneza e Espanha contra os turcos maometanos; estes ameaçavam invadir o Ocidente cristão; o Papa S. Pio V (1566-72), tendo pedido a intercessão de Maria Santíssima, nessa ocasião, houve por bem instituir a festa do Santo Rosário aos 7 de outubro de cada ano para enfatizar e agradecer a intercessão da Virgem Santíssima.

            As duas mulheres – Judite e Éster – lembram que é Deus quem salva os homens como Ele quer, servindo-se dos instrumentos mais precários aos olhos humanos. É este um traço constante da história da salvação, que São Paulo experimentou muito vivamente a ponto de dizer: “Eu me comprazo nas fraquezas, nos opróbios, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por causa de Cristo. Pois, quando sou fraco, então é que sou forte” 2 Cor 12,10. Ora Maria foi certamente a humilde serva do Senhor, que a Providência Divina quis elevar à categoria de nova Eva, intimamente associada à obra de salvação do gênero humano.


JUDITE


“Está escrito que Judite voltou, depois de ter arriscado a vida, o sumo sacerdote a abençoou dizendo: Tu és bendita do Senhor, Deus Altíssimo, minha filha entre todas as mulheres da terra, jamais os homens cessarão o teu louvor” Jt 13, 18-19. Nós dirigimos a Maria as mesmas palavras: “Bendita és tu entre as mulheres! A coragem que tiveste jamais desaparecerá do coração e da lembrança da Igreja”. (Ramiro Cantalamessa).

 

 

A FILHA DE SIÃO


“As palavras de Jesus às vezes descrevem algo já presente, às vezes, criam e mandam existir o que exprimem. A esta segunda ordem pertencem as palavras de Jesus dirigidas a Maria e a João no momento da morte. Dizendo: “Isto é o meu corpo”... Jesus transformou o pão em seu corpo; assim também, com as devidas proporções, dizendo: “Eis aí a tua mãe, e Eis aí o teu Filho”, Jesus constitui Maria mãe de João e João filho de Maria. Jesus não apenas proclamou a nova maternidade de Maria, mas a instituiu. Esta, pois, não vem de Maria, mas da Palavra de Deus; não se baseia no mérito, mas na graça.

Debaixo da cruz, Maria mostra-se, pois, como a filha de Sião que, depois do luto e da perda dos seus filhos, recebe de Deus novos filhos, mais numerosos que antes, não segundo a carne, mas segundo o Espírito. Um salmo que a Liturgia aplica a Maria, diz: “Tiro, Filistéia e até mesmo a Etiópia: estes ali nasceram. Mas de Sião se há de dizer: “Estes e aqueles nela nasceram...”. O Senhor há de apontar no registro dos povos: “Este nela nasceu”. (Sl 86, 4-6). É verdade: todos nasceram lá!. Dir-se-á também de Maria, a nova Sião: estes e aqueles dela nasceram. De mim, de ti, de cada um, também daquele que ainda não o sabe, no livro de Deus está escrito: “Este ali nasceu”.

Mas, por acaso, não ‘nascemos da Palavra de Deus viva e eterna’ (1Pd 1,23)?  Não nascemos de Deus, (Jo 1,13), renascidos ‘d’água e do Espírito’ (Jo 3,5)? É a pura verdade, mas isso não impede que, num sentido diferente, subordinado e instrumental, tenhamos nascidos também da fé e do sofrimento de Maria. Se Paulo, que é um servo e um apóstolo de Cristo, pode dizer aos seus fiéis: Fui eu que vos gerei em Cristo Jesus, por meio do Evangelho (1Cor 4,15), quanto mais pode dizê-lo Maria, que é a mãe de Cristo!  Quem mais do que ela pode fazer suas palavras do Apóstolo: Filhinhos meus, por quem de novo sinto as dores do parto (Gl 4,19)? Ela nos gera ‘de novo’ debaixo da cruz, porque já nos gerou uma primeira vez, não na dor, mas na alegria, quando deu ao mundo a Palavra viva e eterna que é Cristo, na qual fomos regenerados.

As promessas de Deus não se referem a puras abstrações, nem a cidades ou muralhas. Referem-se as pessoas concretas, das quais todas aquelas coisas são símbolos e imagens. E, se se referem a pessoas concretas, a quem se referem aquelas palavras do salmo, em que se realizam de maneira mais clara do que em Maria, a humilde filha de Sião, início também cronológico daquele ‘resto’, ao qual pertencem as promessas (Rm 11,5-8)?

Confiantes nas potencialidades e riquezas inesgotáveis da Palavra de Deus, que vão muito além dos esquemas exegéticos, aplicamos a Maria o canto de Sião reconstruído depois do exílio que, cheia de admiração olhando para os seus novos filhos, exclama: “Quem me gerou estes filhos? Eu não tinha filhos,  era estéril, quem  os criou?” (Is 49,21).

Não se trata de uma aplicação subjetiva, mas objetiva; isto é, não se baseia no fato de Maria ter ou não pensado, naquele momento, nestas palavras – de fato, é mais provável que não -, mas no fato destas palavras, por disposição divina, objetivando terem se realizado nela. Isto se descobre por uma leitura espiritual da Escritura, feita com a Igreja e na Igreja. E como sai perdendo quem se coloca na impossibilidade de jamais a poder fazer! Perde o Espírito, e contenta-se com a letra. A moderna ciência da interpretação formulou um princípio interessante: afirma que para entender um texto não podemos prescindir do resultado por ele produzido, da ressonância que teve na história. Isto vale ainda mais para os textos da Sagrada Escritura; estes não se entendem, em todo o seu conteúdo e virtualidade, se não a partir da história do que produziram em Israel e depois na Igreja; a partir da vida e da luz que deles brotam. Isto vale sobre tudo para palavras com as que estamos examinado. Esta ‘história das realizações’ é o que a Igreja chama de Tradição.         

Etapas da história da Salvação





A história que encontramos na Bíblia é em realidade a história da Salvação, ou melhor, do Plano Salvífico, estabelecido e levado a cabo por Deus, através de sucessivas alianças que Deus faz com a humanidade, a saber:

-          A Aliança com Noé após o dilúvio (Gn 9, 1-17);

-          A Aliança com Abraão (Gn 15, 7-20; 17, 1-14) renovada com Isaac (Gn 22,1-19) e com Jacó (Gn 28, 10-22);

-          Aliança com Moisés (Ex 24, 1-8);

-          Aliança com Josué em Siquem (Jos 24,25-28);

-          Aliança com Davi (2 Sam 7, 4-16);

-          Aliança com Salomão na consagração do Templo (I Re 8,1-13;

-          Aliança com o povo depois do desterro (Ne 8, 1-10,40)

Todas estas Alianças veterotestamentárias marcam etapas na história da Revelação e são preparatórias para a Aliança definitiva estabelecida pelo sacrifício de Jesus Cristo no Calvário, e selada com a vinda do Espírito Santo em Pentecostes.

O plano divino da salvação, da qual a Revelação é uma parte, tem um centro que também é uma culminação e uma recapitulação: Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro.

3. O que é a Bíblia?

A Bíblia ou Sagrada Escritura é a coleção de livros que, escritos sob a inspiração do Espírito Santo, têm Deus por autor e como tais  livros divinos e inspirados ,  foram entregues à Igreja.

Se quisermos entender o que são os Livros Sagrados, temos que ter em conta que estes, diferentemente de todos os outros livros que existem e foram escritos, têm duas características próprias e exclusivas:

1-    São de origem divina devido a uma ação peculiar que é a inspiração divina.

A Fé na Inspiração dos textos da sagrada Escritura possui raízes já no Antigo Testamento, na fé israelita, na inspiração de Moisés, dos profetas, dos autores dos escritos sapienciais, dos sacerdotes nas suas instruções religiosas. Essas formas de inspiração não são idênticas. Moisés era o único mediador que transmitia a vontade de Deus à Israel. O profeta era aquele que exprimia a palavra do Senhor à luz da aliança selada com os Dez Mandamentos. A sabedoria era considerada um dom do Senhor e, a instrução dos sacerdotes, uma derivação do ministério doutrinal de Moisés.

De fato, Jr (Jeremias) 18,18 fala deste tríplice carisma do A.T: a instrução do sacerdote, o conselho do sábio, a palavra do profeta.

Entre 400 a.C e 100 d.C, vai-se impondo no judaísmo a convicção firme à origem divina dos livros sagrados. Os rabinos atribuíam um grau máximo de inspiração ao Pentateuco, um grau inferior aos Livros Proféticos, e um nível ainda inferior aos demais livros.

A Inspiração era entendida pelos rabinos como uma espécie de ditado, mediante o qual Deus comunicava as palavras do texto sagrado aos autores humanos inspirados. Por conseguinte, todo versículo é considerado nas discussões rabínicas um oráculo divino, contendo uma revelação capaz de dirimir qualquer dúvida ou controvérsia.

O Novo Testamento assume a Fé de Israel na Inspiração dos Livros Sagrados. Prova disso, o N.T cita cerca de 350 vezes o A.T , o que significa que tanto Jesus, em sua pregação sobre o Reino do Céus, quanto os Apóstolos, em sua missão de transmitir tudo quanto ouviram e testemunharam de Cristo , assumem a origem divina destes textos.

A fé na Inspiração bíblica aparece de forma explícita no N.T em dois textos:

2 Tm 3,14-17

“Tu, porem, permanece firme naquilo que aprendeste e creste. Sabes de quem aprendeste. E desde a infância conheces as sagradas Escrituras e sabes que elas têm o condão de te proporcionar a sabedoria que conduz à salvação, pela fé em Jesus Cristo. Toda a escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça. Por ela, o homem de Deus se torna perfeito, capacitado para toda boa obra”.

2 Pd 1,19-21

“Assim demos ainda maior crédito à palavra dos profetas, à qual fazeis bem em atender, como a uma lâmpada que brilha em um lugar tenebroso até que desponte o dia e a estrela da manhã se levante em vossos corações. Antes d etudo, sabei que nenhuma profecia da escritura é de interpretação pessoal. Por que jamais uma profecia foi proferida por efeito de uma vontade humana. Homens inspirados pelo Espírito Santa falaram da parte de Deus”.

Outros tantos textos do N.T testemunham que a Igreja primitiva tinha firme convicção de ter aquele mesmo carisma profético que Israel possuia: At 2, 16-20; 11,27; 13,1; I Cor 12,28s; 4,37; Ef 4,11).

Os Padres da Igreja aceitaram desde o início a fé na origem divina e na autoridade da Bíblia. A literatura pratística do século II cita o Novo Testamento no mesmo nível de autoridade que o A.T. Segundo esta, Deus é o autor da Bíblia; o autor humano é instrumento de Deus; a Bíblia é a Palavra de Deus.

Dito isto, surge naturalmente a seguinte pergunta: como atua a ação divina da inspiração sobre os autores humanos dos Livros Sagrados?

Como já foi referido, segundo a fé de Israel, ela atuaria em forma de ditado. Os Padres da Igreja parecem ter assumido este conceito de ditado. Somente no século XIX o problema da inspiração tornou-se um problema teológico grave, de modo que até o Concílio Vaticano I, em 1870, nenhuma declaração da Igreja visa esta questão. O Concílio Vaticano I declara que a Igreja aceita os livros sagrados não porque são aprovados por sua autoridade na hipótese que são de origem humana, mas aceita-os porque Deus é seu autor mediante a inspiração do Espírito Santo. A rejeição da inspiração divina da Bíblia é condenada como heresia formal.

Em 1893, o papa Leão XIII interveio com a encíclica Providentissimus Deus, declarando que “Deus moveu os escritores inspirados mediante a sua ação sobrenatural, incitando-os a escrever e assistindo-os no escrever; por isso, eles conceberam corretamente e exprimiram fielmente tudo aquilo que Deus queria e somente aquilo que ele queria; somente assim Deus pode ser o autor da Bíblia”.

Segundo esta afirmação do Magistério, Deus é o agente principal, em todas as operações essenciais na composição dos livros que compõem a Sagrada Escritura, desde a sua idealização, até a formulação do canon bíblico.


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

REGIMENTO PARA A GINCANA BÍBLICA



CAPÍTULO 1 — DOS COMPETIDORES

Cada Comunidade, Grupo, Movimento e Pastoral tem o direito de inscrever sua equipe que terá 5 membros inscritos e uma equipe de apoio com mais cinco não inscritos.

CAPÍTULO 2 - DAS CLASSIFICAÇÕES DAS PROVAS

Na primeira fase cada acerto vale 500. Na segunda fase cada  acerto valerá 100 pontos na classificação geral e cada erro retira 100 pontos
As oito equipes mais bem colocadas passam para a segunda fase que consiste no encontro entre as equipes mediante sorteio

As 3 primeiras colocadas na classificação geral serão contempladas com troféus.
Qualquer eventualidade ocorrida não prevista neste regulamento deve ser discutida e resolvida por uma comissão formada pela direção da gincana bíblica.
CAPÍTULO 3 - DAS DATAS E LOCAIS DA GINCANA E INSCRIÇÕES:

INSCRIÇÕES DAS EQUIPES NA SECRETARIA PAROQUIAL ATÉ O DIA 30 DE AGOSTO
PRIMEIRA FASE: DIA 14 DE SETEMBRO, 10H AUDITÓRIO IRMÃ DULCE
SEGUNDA FASE: DIA 21 DE SETEMBRO, 10H AUDITÓRIO IRMÃ DULCE


CAPÍTULO 4 — DAS PROVAS

A Gincana Bíblica compõe-se das seguintes provas:


a. Conhecimento Paroquial - Relativo à vida de sua paróquia;
b. Conhecimento Bíblico - Relativo ao Evangelho de Mateus;

Estas são as provas do encontro de equipes na segunda fase:
  • Detetive Bíblico: Cada equipe receberá uma Bíblia e terá a missão de encontrar um texto bíblico previamente citado, somando pontos quem o encontrar primeiro.
  • Desafio Bíblico: Perguntas de uma equipe para outra com base nos Evangelhos.
  • Auxílio Telefônico: cada equipe terá direito a uma ligação para qualquer pessoa, exceto os padres. Será feita uma pergunta. É a única que pode tirar pontos da equipe: o não atendimento tira 100 e a resposta errada tira 100.
  • Vida dos Santos
  • Conhecimentos do Evangelho
Todos os competidores serão sorteados dentro de uma lista previamente entregue a partir da lista de inscrições.


Sobre as perguntas a serem feitas:
a) Serão feitas 20 questões, contendo cada uma quatro alternativas de resposta;
b) Não é obrigatório se esperar o final da pergunta, no entanto, ao se solicitar o direito de responder, a pergunta não será repetida.

A estrutura das provas

  • Detetive Bíblico: Cada equipe receberá uma Bíblia e terá a missão de encontrar um texto bíblico previamente citado, somando pontos quem o encontrar primeiro.Aqui todas as citações serão extraídas de um dos quatro Evangelhos
  • Desafio Bíblico: Perguntas de uma equipe para outra com base nos Evangelhos. A própria equipe faz a sua pergunta para a outra equipe. A resposta correta dará 100 pontos a equipe, o erro retira 100 pontos.
  • Auxílio Telefônico: cada equipe terá direito a uma ligação para qualquer pessoa, exceto os padres. Será feita uma pergunta. É a única que pode tirar pontos da equipe: o não atendimento tira 50 e a resposta errada tira 100. O acerto vale 100
  • Vida dos Santos: os santos são devidamente escolhidos havendo uma rodada de cinco perguntas. Os santos escolhidos São os padroeiros de Tibiri II São Pedro e São Paulo
  • Conhecimentos dos Evangelho: Evangelho de Mateus

Cartas Paulinas - Tessalonicenses I e II



1 e 2 TESSALONICENSES

            1. A cidade de Tessalônica
Tessalônica foi fundada em 315 aC por Cassandro, general de Alexandre Magno, no lugar de uma antiga vila chamada Thermas. Para habitar a nova cidade, Cassandro transferiu a população de muitas pequenas vilas do Golfo Termaico.
A nova cidade recebeu o nome em homenagem à sua mulher, Thessalonike, irmã de Alexandre Magno, portanto, filha de Felipe II da Macedônia. Thessalonike tinha nascido no dia da vitória de seu pai sobre os tessálios em 353 aC. Tessalônica, de fato, significa “vitória dos tessálios”.
A cidade de Tessalônica ocupava um lugar privilegiado e estratégico no mar Egeu. Estava situada no fértil vale do rio Vadar, protegida ao norte pelas montanhas Khortiatis e aberta ao sul para o golfo Termaico. Seu porto era um dos mais movimentados do mar Egeu. Distava 150 km de Filipos pela via Egnatia que colocava em contato com a região do Épiro de um lado e com o Bósforo de outro.
Na época de Paulo era, no dizer de Strabão, “a metrópole da Macedônia - a mais populosa cidade”. O escritor romano Cícero, que se exilou ali de maio a novembro de 58, escreveu: “Tessalônica está situada no meio do nosso império” (as Atticum 3,19). O poeta Antípatro (50 aC - 25 dC) nela nascido, a celebra como “Mãe de toda a Macedônia”.
Em 168 aC, os romanos conquistaram a Macedônia e a transformaram em Província Romana. Em 146 aC, Tessalônica tornou-se a capital da Província Imperial da Macedônia. Nela, morava, o procônsul romano, representante do imperador. Após a batalha de Filipos em 42 aC, obteve de Augusto o título de “cidade livre”. Era administrada por uma assembléia popular eleita anualmente pela população e por magistrados chamados “politarcos”. Como era costume na época, somente os cidadãos nascidos em Tessalônica tomavam parte na vida democrática da cidade. Os pobres, escravos, libertos e estrangeiros domiciliados (metecos) estavam excluídos da organização da cidade.           
No tempo de Paulo, Tessalônica era uma cidade de segunda grandeza no império, pouco menor que Alexandria do Egito, Antioquia da Síria, Corinto, Éfeso, Cartago e Lião nas Gálias.       
Sua população era formada por grande número de romanos e gregos, e caracterizada por fortes contrastes políticos-sociais. De um lado os comerciantes e armadores vindos de todas as partes do império, com todos os direitos e de outro a grande massa de pobres. Os escravos eram quase a metade da população. Havia também uma numerosa e influente colônia judia, com sua própria organização, com sinagoga, tribunal e conselho de anciãos e o privilégio de “religião lícita”.  No campo religioso, havia em Tessalônica, como nas outra grandes cidades do Império Romano, um grande sincretismo religioso.
A deusa principal da cidade era Nike – a deusa da vitória. Havia ainda templos dedicados a Zeus ou Júpiter – pai de todos os deuses; Netuno ou Posseidon – deus do mar; Ísis e Osíres – deuses do Egito e outros. Um dos principais cultos era o de Dionísio – Baco, um dos cultos de mistério com fortes ligações com a vida pós-morte. De fato, uma das tribos deslocadas por Cassandro na fundação de Tessalônica, chamava-se Tribos Dionisias. As moedas da cidade traziam a esfinge desse deus.       
O culto do imperador também ocupava um lugar importante. Tessalônica se orgulhava com o título de Neókoros, concedido somente às cidades que tinham permissão de construir templos ao imperador. O culto ao imperador era um modo de conservar o privilégio de cidade livre. Os judeus sabiam disso e acusaram Paulo e seus companheiros de propor um outro rei – Jesus (At 17,7).
Durante a conquista turca, a cidade passou a ser chamada Salônica, mas a partir de 1937 retomou seu antigo nome de Tessalônica.



                        2. A Evangelização   
            A permanência de Paulo na cidade não foi muito longa. At 17,2 fala de apenas três semanas. Mas as cartas deixam supor alguns meses, de tal modo que Paulo teve tempo de aplicar-se a um trabalho manual e material para assegurar sua sobrevivência (lTs 2,9) e, ao mesmo tempo, constituir uma comunidade bastante numerosa e formada sobretudo de pagãos convertidos (lTs 2,10) e com uma certa "organização" (1Ts 5,12-13). Quanto à classe social dos cristãos, At 17,4 fala  de “damas da sociedade” e 1Ts 4,11 fala em “ganhar o sustento com as próprias mãos”. Baseados nesses textos, os exegetas falam de uma mínima percentagem de membros da classe média e alta e a grande parte  de trabalhadores manuais, isto e, escravos, artesãos e pessoal do porto.
            Como era seu costume, Paulo dirigiu-se, em primeiro lugar, aos judeus e por três sábados ensinou na sinagoga (At 17,2). Sua pregação teve certo sucesso (At 17,4). Mas uma insurreição de judeus invejosos (At 17,5-10) obrigou Paulo e seus companheiros a abandonar a cidade, indo para Beréia (At 17–10 ) e depois para Atenas (At 17,15ss).
            De Atenas, Paulo enviou Timóteo a Tessalônica (lTs 3,1) para sustentar a jovem Igreja. Parece que era desejo seu ir pessoalmente à Tessalônica, outra vez. Mas algo que desconhecemos atrapalhou seus planos.
            Durante sua permanência em Tessalônica, os judeus, provavelmente incitaram os pagãos contra Paulo e contra os neo-converti­dos. Sua partida da cidade não foi suficiente para serenar os ânimos. Os cristãos eram ainda objeto de calúnias por parte dos judeus (lTs 3,6-10). Assim na impossibilidade de ir pessoalmente, Paulo enviou Timóteo. Nesse ínterim, Paulo partiu de Atenas, onde sua mensagem não foi bem recebida, para Corinto, onde Timóteo o encontrara no seu regresso de Tessalônica.



                        3. As Cartas
            Segundo At 18,5 e lTs 3,6 as duas cartas foram escritas durante a permanência de Paulo em Corinto, pelo ano 50/51, durante a sua segunda viagem missionária.

a) A primeira carta é fruto da descrição, feita por Timóteo, da situação da jovem Igreja.
Esta Carta não é somente a primeira em ordem de tempo, mas também o primeiro escrito do Novo Testamento. No que se refere ao essencial da vida cristã, as notícias eram boas. Os cristãos de Tessalônica permaneciam firmes na fé, esperança e caridade. Sua fé tinha sido aprofundada por causa das dificuldades e das provas encontradas (cf. lTs 1,3; 3,6-8). No entanto, a comunidade não tinha entendido bem a doutrina sobre a Parusia, e se preocupava pela sorte de seus membros mortos antes da vinda de Cristo (4,13). Isso gerava desvios morais, angústias, tristezas e até ociosidade.
Assim a carta de Paulo tem duplo objetivo:
- um encorajamento da fé dos cristãos e uma ação de graças por sua operosidade (1–3);
- corrigir os desvios que surgiram na comunidade, sobretudo no que se refere à sorte dos               mortos na ressurreição e sobre a segunda vinda de Cristo (4,13–5,10).
b) Os estudiosos que defendem que a segunda carta também é de autoria do Apóstolo Paulo, afirmam que ela foi escrita, provavelmente, alguns meses depois da primeira Carta e praticamente tem o mesmo objetivo. Talvez as palavras de Paulo “nós os que estivermos vivos...” em lTs 4,15 tenham motivado ainda mais a preocupação de uma parusia iminente. O Apóstolo procura desfazer tais idéias descrevendo os sinais que precederão a vinda de Cristo (2,1-12) e exortando todos a se dedicarem ao trabalho (3,10-12).


                       

                        4. Estrutura das Cartas
a) 1 Tessalonicenses – É dividida em duas partes:
1,1
Endereço
1,2 – 3,13
1ª parte: Agradecimentos e recordações
1,2-3       → agradecimento pela fé, caridade e esperança dos
                    Tessalonicenses;
1,4-10       ampliação do agradecimento: a resposta dos
                    Tessalonicenses â pregação de Paulo;
2,1-12       Paulo retoma o agradecimento: a pregação de Paulo
                    em Tessalônica;
2,13-16     confirmação do agradecimento: a resposta dos
                    Tessalonicenses ao anúncio evangélico;
2,17–3,5 →  o tempo do afastamento: não podendo ficar em
                    Tessalônica, Paulo enviou Timóteo;
 3,6-13      retomada do agradecimento: Timóteo retornou
                    trazendo boas notícias.
É uma grande ação de graças pela realidade da Igreja de Tessalônica. É quase uma crônica emocionante, mas cheia de gratidão a Deus. Paulo lembra a sua expulsão de Filipos, o encontro com os tessalonicenses, a acolhida do anuncio do Evangelho, o período transcorrido na cidade, as dificuldades suas e dos cristãos, a viagem de Timóteo e as boas notícias recebidas. E termina com uma oração para que Senhor faça crescer sempre mais os tessalonicenses no amor e na conduta irreprovável.
4,1 – 5,22
2ª parte: Exortações e vários ensinamentos:
4,1-2  Introdução
4,3-8     → a busca da santidade no amor;
4,9-12   → o amor fraterno;
4,13-18 → o destino daqueles que morreram;
5,1-11   → os tempos e o momento do fim;
5,12-13 → os responsáveis da comunidade;
5,14-22 → exortações conclusivas.
5,23-28
Conclusão

Na primeira parte se nota a presença do binômio “nós-vós”. O “nós” dos missionários e o “vós” dos tessalonicenses. Isso mostra a indiscutível comunhão que unia Paulo e seus companheiros à comunidade de Tessalônica. O nexo dessa união é a aceitação do anúncio de Jesus morto e ressuscitado. A participação nesse fato cria a união entre os evangelizadores e os evangelizados. Essa união se dá pela palavra acolhida e anunciada, a mesma fé e esperança. Nasce assim uma nova união. Basta notar o freqüente uso do termo “irmãos” na carta (14 vezes).
Na segunda parte, prevalece os motivos de exortação, encorajamento, instrução (4,10ss; 5,12). Aqui Paulo se mostra como guia da comunidade. Fala com decisão, segurança e autoridade. Usa verbos no imperativo. Mas não se trata de uma exposição fria de princípios morais. Paulo fala ao coração e procura convencer. Percebe-se a consciência que Paulo tem de sua própria vocação apostólica.
b) 2 Tessalonicenses:
1,1-2
Endereço
1,3-12
Agradecimento e intercessão
1,3-5     → Fé e amor mútuo dos tessalonicenses;
1,6-7     → Punição dos perseguidores;
1,11-12 → Oração pela comunidade de Tessalônica
2,1-12
A vinda do Senhor (Parusia)
2,1-2     → O dia do Senhor não é eminente;
2,3-5     → O fim será precedido da manifestação do homem ímpio;
2,6-7     → Esta será porém impedida de um misterioso obstáculo;
2,8-12   → Destruição do homem ímpio com todos os seus adeptos.
2,13 3,15  
Exortação
2,13-17 → Novo agradecimento a Deus e exortação a manter as
                 tradições;
3,1-5    → Solicitação de orações;
3,6-15  → Repreensão àqueles que se comportam de modo
                 indisciplinado.
3,16-18
Saudação final


            5. Mensagem:
            Alguns pontos importantes que podemos concluir das duas cartas:
            a) Temos aqui exemplo do que era o kerigma missionário, onde já se pode perceber um sentido trinitário do anúncio. Insiste-se na adesão ao único e verdadeiro Deus.
            b) Pelas Cartas se pode perceber também as dificuldades encontradas, os primeiros problemas que surgiram nas comunidades e o modo como o Apóstolo tentou resolvê-los.
            c) O Evangelho é verdadeiramente “Palavra de Deus” (2,13). A 1Ts é o primeiro escrito do NT. Esta Carta não é endereçada a pessoas, mas a uma Igreja (1,1). É o novo Israel que Deus amou e escolheu (1,4; 2Ts 1,11).
            d) É interessante a preocupação com a Parusia e a Escatologia e as soluções propostos por Paulo.
            e) Na comunidade percebe-se já a existência de alguns ministérios, a quem Paulo recomenda o respeito (1Ts 5,12). Porém, todos são instrumentos na mão de Deus (1Ts 4,9) e devem se ajudar mutuamente (1Ts 5,14).
            f) A oração é importante para o bem da comunidade, que tem também os dons do Espírito (carismas). Os cristãos devem ter o discernimento, porém não devem apagar o Espírito e não devem desprezar as Profecias (1Ts 5,19-21).
            g) Os cristãos devem esperar com paciência à vinda de Cristo, portanto, devem trabalhar e inserir-se na vida social, ganhando o pão de cada dia com o trabalho (cf. 2Ts 3,5-15). A história humana prossegue o seu curso, sem que possamos estabelecer a data do seu fim.
            i) Os temas trabalhados nestas duas Cartas permanecem atuais. O anúncio da palavra é sempre novo. “Por esta razão é que sem cessar agradecemos a Deus por terdes acolhido sua Palavra, que vos pregamos não como palavra humana, mas como na verdade é, a Palavra de Deus que produz frutos em vós, os fiéis” (1Ts 2,13). De outra parte, muitos são os que hoje anunciam a Palavra com fins enganosos, anunciam ainda o “fim do mundo” (por ignorância ou com objetivos econômicos), enganando multidões. Palavra de Deus é palavra que produz a vida e não o medo!