"POREI
INIMIZADE ENTRE TI E A MULHER, ENTRE A TUA DESCENDÊNCIA E A DELA. ELA
TE ESMAGARÁ A CABEÇA E TU LHE FERIRÁS O CALCANHAR' (Gn 3,15)
Este
versículo do livro do Gênesis é conhecido como o "proto-Evangelho", que
quer dizer "primeiro Evangelho. Nele está contido o germe da promessa
messiânica. Trata, portanto, da promessa de um Redentor, do anúncio da
vitória do Messias nascido de uma Mulher. A
análise do Proto-Evangelho no sentido literal aponta para Eva. As Sagradas Escrituras identificam Eva como
uma virgem que foi seduzida pela Serpente e que esteve sob o seu domínio
(Eclo 25,24; 2Cor 11,3; 1Tim 2,14). A partir destes colóquios, não
podemos atribuir a Eva a figura da mulher do Proto-Evangelho. Se torna,
portanto, necessária a análise do texto no sentido pleno. Esta análise,
de maneira mais profunda que no sentido estritamente literal, esclarece
vários aspectos que não se apresentaram de forma transparente na
descrição do autor. Desta forma se conhece o sentido maior de um texto
das Sagradas Escrituras à luz de outros textos das mesmas escrituras que
dão um significado mais amplo àquilo que nos parecia restrito.
Para
conhecermos o sentido pleno do Proto-Evangelho, servir-me-ei de
inúmeras passagens das Sagradas Escrituras e, de modo especial, do texto
inerente à batalha entre a Mulher e o Dragão descrito no livro do
Apocalipse de São João. Antes,
porém, não poderia deixar de tecer alguns comentários inerentes ao
gênero literário utilizado pelo seu escritor, comentários estes, de
caráter imprescindível para a compreensão de suas revelações.
O
Apocalipse foi escrito por São João Evangelista nos ultimos anos de sua
vida terrena, quando estava aprisionado na ilha de Patmos. Sua
descrição, considerando o momento vivido pelo autor, utilizou-se de uma
série de visões e revelações simbólicas, apresentando uma mesma
realidade com diferentes símbolos inerentes à história da salvação dos
homens, no intuito de dificultar a compreensão por parte dos
perseguidores e não cristãos, levando em conta que se fosse escrito numa
linguagem comum, dificilmente chegaria ao seu destino. Foi escrito sob a
forma de carta dirigida aos cristãos da Asia menor em um período
histórico marcado pelas perseguições a que os cristãos eram submetidos e
que os levava muitas vezes à perda da esperança no retorno glorioso de
Jesus. Para se compreender melhor esta questão a respeito do gênero
literário do Apocalipse se faz necessário observar o Evangelho segundo
São João e suas três cartas apostólicas contidas no Novo Testamento,
visto que, fora da prisão, o mesmo autor deixa transparente nos seus
escritos o seu estilo e o seu gênero literário.
O
texto do Apocalipse é uma mensagem sobrenatural marcada por toda uma
simbologia que representa tanto o passado, como o presente e o futuro,
estimulando os cristãos à perseverança e preparando-os para suportar as
perseguições sem desistirem da luta e sem perderem a esperança na
vitória final com Cristo, aquele que venceu a morte. É
importante ressaltar ainda que, no texto do capítulo 12 do Apocalipse,
a forma precisa com que São João descreve em cada detalhe a figura da
Mãe de Jesus, se deve so seu convívio muito íntimo com ela desde que a
levou consigo para sua casa (Jo 19,27).
Adentrando
no estudo do texto do Apocalipse, compreendemos, de forma óbvia, que a
mulher descrita tanto no Proto-Evangelho quanto na luta contra o Dragão é
Maria, a mãe de Jesus: "Ela deu à luz um filho, um menino, aquele que deve reger todas as nações com cetro de ferro" (Ap 12,5).
Este versículo se torna ainda mais claro quando o analisamos à luz de
outros textos das Sagradas Escrituras. Assim, o nascimento de Jesus e o
seu governo sobre todas as nações é descrito no livro dos Salmos (Sl
2,7-9) e pelo profeta Isaias (Is 7,14), dentre outras passagens
bíblicas. Estas palavras se cumprem com o nascimento de Jesus, conforme
descreve São Mateus (Mt 1,18-25). Mais tarde, São Lucas deixa claro que é
Jesus, o filho de Maria, aquele que regerá todas as nações (At 13,33).
Com a mesma precisão, São Paulo faz referência ao mesmo fato (Hb
1,5;5,5).
A sequência do texto apocalíptico narra que "a mulher fugiu então para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um retiro para aí ser sustentada por mil duzentos e sessenta dias (...) fora do alcance da cabeça da Serpente" (Ap 12,6.14).
Esta passagem se refere à fuga para o Egito, local onde José, avisado
pelo anjo do Senhor, levou o menino e sua mãe para lá permanecerem até a
morte de Herodes, evitando, dessa forma, que o menino Jesus fosse
vítima da matança dos inocentes promovida por Herodes em Belém e no seu
entorno (Mt 2,13-16). Note-se, neste caso, que o período que a sagrada
família passou no Egito foi de aproximadamente três anos e meio, o que
corresponde, também de forma aproximada, ao período de mil duzentos e
sessenta dias (Ap 11,3; 12,6) ou, em outros termos, quarenta e dois
meses (Ap 11,2), ou aínda, numa linguagem mais simbólica, um tempo, dois
tempos e a metade de um tempo (Ap 12,14).
Não há dúvida, portanto, que aquela mulher descrita no Proto-Evangelho é Maria, a mãe de Jesus. Retornando
ao texto do Gênesis, vemos que tal inimizade foi posta em duas
dimensões distintas, sendo a primeira inderente à Serpente e a Mulher, e
a segunda inerente às descendências de ambas. A
análise do texto no sentido pleno deixa claro, comos vimos
anteriormente, que o descendente da mulher é Jesus, implicando, desta
forma, necessariamente, sua mãe, Maria Santíssima, visto que pelo
conhecimento da genealogia descendente se chega, conseqüentemente, à
comprovação da genealogia ascendente. Neste sentido, este estudo aponta
para Jesus e para Maria como protagonistas da batalha renhida e da
vitória final contra a serpente.
A
serpente se constituiu, no texto do gênesis, na forma utilizada por
Satanás para proceder ao seu disfarce. Foi através dela que ele seduziu a
primeira mulher, colocando no seu coração o mesmo pecado cuja
conseqüência lhe custou a queda do paraíso celeste. As
Sagradas Escrituras se servem de vários termos para identificar o anjo
decaído: Serpente (Gn 3,15); Demônio (Sb 2,24); Diabo (Jo 13,2);
Tentador (Mt 4,3; 1Tes 3,5); Malígno (1Jo 5,18-19); Príncipe do Mundo
(Jo 12,31), Destruidor (Ap 9,11); Acusador e Dragão (Ap 12, 9-12),
dentre tantos outros predicados, de modo que todas estas formas de
identificação exprimem as características pertinentes à ação proveniente
de sua inimizade para com a mulher e sua descendência.
Aquilo que, segundo as Sagradas Escrituras, era ostentado por Lúcifer - Ser semelhante ao Altíssimo (Is 14,14) - Deus concedeu ao homem: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança" (Gn 1,26),
de maneira que este fato se constitui na razão maior que levou Satanás a
investir contra o homem a fim de que este descaracterizasse aquilo que
tinha de mais sublime, que era a imagem e semelhança de Deus. Tornou-se,
pois, necessário, segundo o plano de Deus, que a Eva do Gênesis,
destituida da imagem e da semelhança do Criador, fosse substituida por
uma virgem cheia de graça (Lc 1,28), que daria à luz a uma nova geração.
Nela o Verbo de Deus se fez carne (Jo 1,14) e trouxe aos homens a
redenção de todo o pecado (Sl 129,7; Rm 3,24; Ef 1,7; 4,30; Col 1,14; Hb
9,12). Eis, portanto, a causa maior da inimizade da serpente para com a
mulher. Esta relação entre Eva e a Mãe de Jesus a partir do sentido
pleno das Sagradas Escrituras levou muitos cristãos a várias reflexões
que referendam a definição exegetica de que Maria é a mulher do
Proto-Evangelho.
No ano 165, São Justino afirma que "Eva era uma virgem incorrupta que, concebendo a palavra da Serpente, gerou a desobediência e a morte para a humanidade. A Virgem Maria, porém, concebeu fé e alegria quando o Anjo Gabriel lhe anunciou a Boa Nova" Estas palavras foram complementadas por Santo Irineu no ano 202 no seguinte teor: "Como
Eva, que tendo-se feito desobediente, se tornou causa de morte tanto
para si quanto para todo o gênero humano, também Maria, obedecendo,
tornou-se causa de salvação tanto para si quanto para todo o gênero
humano. (...) O nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência
de Maria. (...) O que a virgem Eva ligou pela incredulidade, a Virgem
Maria desligou pela fé."
Mais tarde, no ano 403, Santo Epifânio afirma que: "Numa
consideração exterior e aparente, dir-se-ia que de Eva derivou a vida
de todo o gênero humano sobre a terra. Mas na verdade, é de Maria que
deriva a verdadeira vida para o mundo. É Ela que dá à luz o Filho Vivente. Portanto, o título de "Mãe do Viventes" queria indicar, na sombra e na figura, a pessoa de Maria, Mãe de Jesus".
O título de "Nova Eva" considera que Maria é a mulher "Mãe dos Vivos",
pois foi ela que deu à luz o seu filho Jesus, o Vencedor da Morte,
aquele que é a cabeça do Corpo Místico de Cristo que é a Igreja (Ef
1,22-23; 4,15; 5,23; Col 1,18; 2,19; 1Pd 2,25). Desta forma, ao dar à
luz àquele que é a cabeça da Igreja, do Corpo Místico de Cristo, Maria,
misticamente, se torna também Mãe da Igreja, ponderando que aquela que
dá à luz à cabeça, também o dá ao corpo na sua totalidade, na sua
integralidade.
Esta
relação entre Eva e a Mãe de Jesus é também referendada pelo Concílio
Ecumênico Vaticano II, considerando a descrição das Sagradas Escrituras
no seu sentido pleno e associando estes estudos exegéticos ao testemunho
dos santos. De
semelhante maneira, a Constituição Apostólica Munificentissimus Deus
(definição dogmática da assunção de Maria ao céu) proclamada pelo Papa
Pio XII em 1950, leva em consideração que desde o século II a Virgem
Maria é reconhecida como a "Nova Eva", intimamente unida ao "Novo Adão"
(Rm 5, 12-19) na luta contra o demônio, luta esta que, profetizada no
Proto-Evangelho, terá o seu final na vitória completa sobre o pecado e
sobre a morte (Is 25,8; Os 13,14; Rm 5,6; 1Cor 15,21-26.54-57). Esta
relação EVA/MARIA é também citada no nº 55 da Constituição Dogmática
Lumen Gentium (sobre a Igreja), no nº 11 da Carta Encíclica Redemptoris
Mater (sobre a Bem-Aventurada Virgem Maria na vida da Igreja que está a
caminho) e no nº 19 da Carta Apostólica Muliewris Dignitatis (sobre a
mulher na Igreja).
Percebe-se,
então, que as Sagradas Escrituras, a Tradição e o Magistério da única
Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a mais absoluta propriedade,
afirmam que Maria Santíssima é a Mulher que, junto com a sua
descendência que é a Igreja, o Corpo Místico de Cristo, esmagará a
cabeça da Serpente. Sabemos
que a Serpente é o Lúcifer, aquele "anjo decaído", aquele Dragão que
arrastou com sua cauda a terça parte dos anjos celestiais quando foi
precipitado sobre a terra (Ap 12,4). Sabemos também que a Mulher que
recebeu a inimizade da Serpente é aquela que deu à luz um filho que
regerá todas as nações (Sl 2,7-9; Is 7,14; Mt 1,18-25; At 13,33; Hb 1,5;
5,5; Ap 12,5), que fugiu para o deserto a fim de preservar a vida do
seu filho longe do alcance da Serpente (Ap 12,6.14; Mt 2,13-16), que é
cheia de graça (Lc 1,28), que todas as gerações a proclamarão
Bem-Aventurada (Lc 1,48). Da mesma forma sabemos que a descendência da
Mulher é a Igreja, o Corpo Místico de Cristo (Ef 1,22-23; 4,15; 5,23;
Col 1,18; 2,19; 1Pd 2,25), os que guardam os mandamentos de Deus e têm o
testemunho de Jesus (Ap 12,17).
A
pessoa de Nossa Senhora é, portanto, a Mulher do Proto-Evangelho (Gn
3,15) que aparece como um grande sinal no céu (Ap 12). Da mesma maneira
que o Proto-Evangelho descreve, no início da história da Salvação, o
combate entre a serpente e a Mulher incluindo as descendências de ambas,
o triunfo final da Igreja de Cristo descrito no Apocalipse não poderia
excluir a Mãe de Jesus da festa da vitória final. Com efeito, da mesma
forma como não pode se conceber a origem da Igreja de Cristo sem a
presença de sua mãe, Maria Santíssima, o seu triunfo não se dará sem
Ela. Ela, como a "Nova Eva", tornou-se, por mercê de Deus, a Mãe de
todos os viventes que, aceitando o seu Filho Jesus como Salvador,
receberam-na como Mãe e proclamam-na BEM-AVENTURADA. É exatamente nesta
proclamação que são identificados aqueles que pertencem à descendência
da Mulher, a única Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, os filhos da
Doce, Humilde, Bem-Aventurada e Sempre Virgem Maria!
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