sábado, 19 de março de 2011

Parabéns Padre Dalmo.

Reverendíssimo Padre Dalmo,

Passar pelo mundo fazendo o bem é privilégio das almas escolhidas por Deus. Viver em meio de uma sociedade e conquistar-lhe a estima e a veneração é uma felicidade.
Foi o que conseguistes Padre Dalmo. Alma generosa, feita de amor e bondade, de tal forma vos impusestes aos vossos paroquianos que lhes conquistastes o respeito e a devoção.
Vossa palavra de amor e perdão tem o dom de vencer até os mais insensíveis, porque todos vêem em vós o pastor solícito e generoso.
Como fiel discípulo de Cristo, desprezais os bens terrenos porque vosso espírito e vossa inteligência se acham voltadas para as coisas do céu.
Para nós pertencentes ao imenso rebanho do meigo sábio da galiléia é uma grande alegria ter-vos em nossa companhia como pastor que há de nos guiar as campinas da vida, para nos levar ao redil celeste.
Um ano de ordenação, parece pouco, mas diante de vossas virtudes já ultrapassaram as fronteiras de nossa paróquia, e nosso povo sente-se feliz por vos possuir como vigário.
Sereis não só o ministro de Deus, no ministério da Santa Madre Igreja, mas, ainda, o conselheiro seguro nos pequenos e grandes problemas que a cada passo surgem no caminho de nossa existência.
Que Deus vos conserve para o bem de todos nós e glória de seu serviço, são os votos que ardentemente fazemos.

Parabéns Padre Dalmo.

sexta-feira, 18 de março de 2011

A coerência entre fé e vida

-  Durante o tempo da Quaresma, agora iniciado, um aspecto será muito importante em nossa vida de conversão: a transparência, a sinceridade de coração. Quando ouvimos que não é apenas para rasgar as vestes externas, mas o coração; que não é para pronunciar os louvores de Deus apenas com os lábios, mas com o coração, recordamos a advertência do Sermão da Montanha no domingo que precedeu a Quaresma: não basta dizer Senhor, Senhor!

     Entra no reino quem tem diante dos olhos, como seu horizonte, a vontade de Deus, as suas palavras. Daí a urgência, para nós e para as nossas comunidades, de sermos transparentes e coerentes. Que estejamos unidos com a Igreja que santifica, instrui, guia acolhendo, anunciando nos fatos e nas suas escolhas concretas a misericórdia de Deus, fazendo sentir-se perdoados, encontrando realmente os pobres. Somos chamados a olhar o mundo e os homens com o olhar misericordioso do Pai para que não nos tornemos cegos, olhando somente para nós mesmos.

     São Palavras para estarem em nossa mente e em nossas atitudes (como se as amarrássemos na fronte e nas mãos), de tal forma que concretamente e com toda transparência busquemos uma vida de sincera conversão. Ouvir e colocar a Palavra em prática! Somente se estivermos abertos à graça de Deus e assim formos capacitados a amar, perdoar, acolher e respeitar, a nossa vida estará firme, será segura, porque estaremos colocando em prática o que disse o Senhor. Só assim nossa vida estará sendo construída sobre a rocha.

     Construir a casa sobre a areia, ou seja, quando apenas ouvimos, mas não colocamos em prática, é o mesmo que buscar a si mesmo, fechar se, não sendo capaz de olhar para frente, não dar-se conta, pensar pequeno, cuidar apenas dos próprios interesses. Precisamos construir sobre a rocha, colocando em prática a Palavra, construir sobre o coração de Deus!

     Corremos o risco de uma vida fechada como se vivêssemos uma dissociação que faz movimentar a vida em vias paralelas ou em andares separados. De uma parte Deus, a quem dirigimos a nossa oração, a nossa meditação, a nossa ação em seu Nome; de outra, os nossos interesses e o resto da vida. É como se provássemos salvar a obediência a Deus e, ao mesmo tempo, subtrairmo-nos às exigências que a conversão exige. É nessa direção que precisamos buscar a coerência neste tempo quaresmal agora iniciado. Que a nossa vida transpareça as nossas convicções e vice-versa.

     Nos domingos anteriores, quando escutamos a boa notícia da figura do homem novo no Sermão da Montana, meditamos sobre as palavras de Jesus, que diz que nós não podemos servir a dois senhores: eis que às vezes a nossa vida é uma desastrada tentativa de servir a dois senhores. O Evangelho sugere-nos que é da nossa vida cotidiana que se compreende verdadeiramente se temos ou não um só Senhor; é da vida cotidiana que dizemos aos outros quem é verdadeiramente o nosso Senhor.

     Que o tempo de conversão e o silêncio da Quaresma nos encontrem disponíveis a dar passos nessa direção, correspondendo melhor ao chamado de Deus para vivermos o nosso Batismo, a nossa vida cristã com coerência e alegria.

por, † Orani João Tempesta, O. Cist. , Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

Fazei Penitência

Fixemos atentamente o olhar no sangue de Cristo e compreendamos quanto é preciso aos olhos de Deus seu Pai, esse sangue que, derramado para nossa salvação, ofereceu ao mundo inteiro a graça da penitência.

Percorramos todas as épocas do mundo e verifiquemos que em cada geração o Senhor concedeu o tempo favorável da penitência a todos os que a ele quiseram converter-se. Noé proclamou a penitência , e todos que o escutaram foram salvos.

Jonas anunciou a ruína aos ninivitas, mas eles fazendo penitência de seus pecados, reconciliaram-se com Deus por suas súplicas e alcançaram a salvação, apesar de não pertencerem ao povo de Deus.

Inspirados pelo Espírito Santo, os ministros da graça de Deus pregaram a penitência. O próprio Senhor de todas as coisas também falou da penitência, com juramento: Pela minha vida, diz o Senhor, não quero a morte do pecador mas que mude de conduta (cf. Ez 33,11); e acrescentou esta sentença cheia de bondade: Deixa de praticar o mal, ó Casa de Israel! Dize aos filhos do meu povo: “Ainda que vossos pecados subam da terra até o céu, ainda que sejam mais vermelhos que o escarlate e mais negros que o cilício, se voltardes para mim de todo o coração e disserdes: ‘Pai’, eu vos tratarei como um povo santo e ouvirei as vossas súplicas”  (cf. Is: 1,18; 63,16; 64,7; Jr 3,4; 31,9). 

Querendo levar à penitência todos aqueles que amava, o Senhor confirmou esta sentença com sua vontade todo-poderosa.
Obedeçamos, portanto, à sua excelsa e gloriosa vontade. Imploremos humildemente sua misericórdia e benignidade. Convertamo-nos sinceramente ao seu amor. Abandonemos as obras más, a discórdia e a inveja que conduzem à morte.

Sejamos humildes de coração, irmãos, evitando toda espécie de vaidade, soberba, insensatez e cólera, para cumprirmos o que está escrito. Pois diz o Espírito Santo : Não se orgulhe o sábio em sua sabedoria, nem o forte com sua força, nem o rico em sua riqueza; mas quem se gloria, glorie-se no Senhor, procurando-o praticando o direito e a justiça. (cf. Jr 9,22-23; 1 Cor 1,31)

Antes de mais nada, lembremo-nos das palavras do Senhor Jesus, quando exorta à benevolência e à longanimidade: Sede misericordiosos, e alcançareis misericórdia ; perdoai, e series perdoados; como tratardes o próximo, do mesmo modo sereis tratados; daí, e vos será dado; não julgueis, e não sereis julgados; fazei o bem, ele também vos será feito; com a medida com que medirdes, vos será medido (cf. Mt 5,7; 6,14; 7,1.2).

Observamos fielmente este preceito e estes mandamentos, a fim de nos conduzirmos sempre, com toda humildade, na obediência às suas santas palavras. Pois eis o que diz o texto sagrado: Para quem hei de olhar, senão para o manso e humilde, que tremo ao ouvir minhas palavras? (cf. Is 66,2).

Tendo assim participado de muita, grandes e gloriosas ações, corramos novamente para a meta que nos foi proposta desde o início: a paz. Fixemos atentamente nosso olhar no Pai e Criador do universo e desejemos com todo ardor seus dons de paz e seus magníficos e incomparáveis benefícios.

Da Cartas aos Coríntios, de São Clemente I, papa.

quinta-feira, 17 de março de 2011

A purificação pela misericórdia e pelo jejum

Em todo tempo, amados filhos, a terra está repleta da misericórdia do Senhor (Sl 32,5). A própria natureza é para todo fiel uma lição que o ensina a louvar a Deus, pois o céu, a terra, o mar e todo o que neles existe proclamam a bondade e a onipotência de seu Criador; e a admirável beleza dos elementos postos a nosso serviço requer da criatura racional uma justa ação de graças. 

O retorno, porém, desses dias que o mistério da salvação humana marcaram de modo mais especial e que precedem imediatamente a festa da Páscoa, exige que nos preparemos com maior cuidado por meio de uma purificação espiritual.
Na verdade, o próprio da solenidade pascal que a Igreja inteira se alegre com o perdão dos pecados. Não é apenas nos que renascem pelo santo batismo que ele se realiza, mas também naquele que desde há muito são contados entre os filhos adotivos.

É, sem dúvida, o banho da regeneração que nos torna criaturas novas; mas todos têm necessidade de se renovar a cada dia para evitarmos a ferrugem inerente à nossa condição mortal, e não há ninguém que não deva de esforçar para progredir no caminho da perfeição; por isso, todos sem exceção, devemos empenhar-nos para que, no dia da redenção, pessoa alguma seja ainda encontrada nos vícios do passado.

Por conseguinte, amados filhos, aquilo que cada cristão deve praticar em todo tempo, deve praticá-lo agora com maior zelo e piedade, para cumprir a prescrição, que remonta aos apóstolos, de jejuar quarenta dias, não somente reduzindo os alimentos mas sobretudo abstendo-se do pecado.

A estes santos e razoáveis jejuns, nada, nada virá juntar-se com o maior preceito do que a esmola. Sob o nome de obra de misericórdia, incluem-se muitas e louváveis ações de bondade; graças a elas, todos os fiéis podem manifestas igualmente os sem sentimentos, por mais diversos que sejam os recursos de cada um.

Se verdadeiramente amamos a Deus e ao próximo, nenhum obstáculo impedirá nossa boa vontade. Quando os anjos cantaram: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade (Lc. 2,14), proclamavam bem-aventurados, não só pela virtude da benevolência mas também pelo dom da paz, todo aquele que, por amor, se compadece do sofrimento alheio.

São inúmeras as obras de misericórdia, o que permite aos verdadeiros cristãos tomar parte na distribuição de esmolas, sejam eles ricos, possuidores de grandes bens, ou pobres, sem muitos recursos. Apesar de nem todos poderem ser iguais na possibilidade de dar, todos, podem sê-lo na boa vontade que manifestam.

por, Dos Sermões de São Leão Magno, papa, séc V

Levar a conversão à sério

- Queridos irmãos e irmãs:

Iniciamos com a Quarta-Feira de Cinzas, o caminho quaresmal: um caminho que se estende durante quarenta dias e que nos leva à alegria da Páscoa do Senhor. Neste itinerário espiritual, não estamos sozinhos, porque a Igreja nos acompanha e nos sustenta desde o começo com a Palavra de Deus – que engloba um programa de vida espiritual e de compromisso penitencial – e com a graça dos sacramentos.

São as palavras do apóstolo Paulo que nos oferecem uma indicação precisa: “Nós vos exortamos a que não recebais em vão a sua graça. Porque Ele diz: ‘No tempo favorável, eu te ouvi; no dia da salvação, vim em teu auxílio’. Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação” (2 Cor 6,1-2). Na verdade, na visão cristã da vida, cada momento é favorável e cada dia deve ser chamado de dia de salvação, mas a liturgia da Igreja refere estas palavras de modo muito particular ao tempo da Quaresma. E que os quarenta dias de preparação da Páscoa sejam um tempo favorável e de graça podemos entender precisamente no convite que o austero rito da imposição das cinzas nos dirige e que se expressa, na liturgia, com duas fórmulas: “Convertei-vos e crede no Evangelho” e “Lembra-te de que és pó e ao pó hás de voltar”.

O primeiro convite é à conversão, palavra que é preciso considerar em sua extraordinária seriedade, descobrindo a surpreendente novidade que engloba. O convite à conversão, de fato, revela e denuncia a fácil superficialidade que caracteriza frequentemente nossa maneira de viver. Converter-se significa mudar de direção no caminho da vida: mas não para um pequeno ajuste, e sim como uma verdadeira e total inversão de rumo. Conversão é ir contra a corrente, onde a “corrente” é o estilo de vida superficial, incoerente e ilusório, que frequentemente nos arrasta, nos domina e nos torna escravos do mal ou pelo menos prisioneiros da mediocridade moral. Com a conversão, no entanto, indica-se a medida alta da vida cristã e nos é confiado o Evangelho vivo e pessoal, que é Cristo Jesus. Sua pessoa é a meta final e o sentido profundo da conversão; Ele é o caminho que estamos chamados a percorrer na vida, deixando-nos iluminar pela sua luz e sustentar pela sua força, que move nossos passos. Dessa forma, a conversão manifesta seu rosto mais esplêndido e fascinante: não é uma simples decisão moral, que retifica nossa conduta de vida, mas uma decisão de fé, que nos envolve inteiramente na comunhão íntima com a pessoa viva e concreta de Jesus.

Converter-se e crer no Evangelho não são duas coisas diferentes ou, de alguma forma, somente próximas entre si: elas expressam a mesma realidade. A conversão é o “sim” total de quem entrega sua própria existência ao Evangelho, respondendo livremente a Cristo, quem primeiramente se ofereceu ao homem como caminho, verdade e vida, como Aquele que o liberta e o salva. Precisamente este é o sentido das primeiras palavras com que, segundo o evangelista Marcos, Jesus abre a pregação do “Evangelho de Deus”: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).

O “convertei-vos e crede no Evangelho” não está somente no início da vida cristã, mas acompanha todos os seus passos, permanece renovando-se e se difunde ramificando-se em todas as suas expressões. Cada dia é momento favorável de graça, porque cada dia nos convida a nos entregarmos a Jesus, a ter confiança n’Ele, a permanecer n’Ele, a compartilhar seu estilo de vida, a aprender d’Ele o amor verdadeiro, a segui-lo no cumprimento cotidiano da vontade do Pai, a única grande lei de vida. Cada dia, ainda quando há muitas dificuldades e fadigas, cansaços e quedas, ainda quando estamos tentados a abandonar o caminho de seguimento de Cristo e de fechar-nos em nós mesmos, em nosso egoísmo, sem percebermos a necessidade que temos de abrir-nos ao amor de Deus em Cristo, para viver a mesma lógica de justiça e de amor. Na recente Mensagem para a Quaresma, eu quis recordar que “é necessário humildade para aceitar que se precisa que um Outro me liberte do ‘meu’, para me dar gratuitamente o ‘seu’. Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitência e da Eucaristia. Graças à ação de Cristo, nós podemos entrar na justiça ‘maior’, que é aquela do amor (cf. Rom 13,8-10), a justiça de quem se sente em todo o caso sempre mais devedor do que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar”.

O momento favorável e de graça da Quaresma nos mostra o próprio significado espiritual também através da antiga fórmula: “Lembra-te de que és pó e ao pó hás de voltar”, que o sacerdote pronuncia quando impõe sobre a nossa cabeça um pouco de cinzas. Somos assim remetidos aos inícios da história humana, quando o Senhor disse a Adão após a culpa das origens: “Com o suor de teu rosto comerás teu pão até que retornes ao solo, pois dele foste tirado. Pois tu és pó e ao pó hás de voltar” (Gn 3, 19). Aqui, a palavra de Deus nos recorda nossa fragilidade, inclusive nossa morte, que é sua forma extrema, frente ao inato medo do fim; ainda mais no contexto de uma cultura que de tantas formas tende a censurar a realidade e a experiência humana do morrer, a liturgia quaresmal, por um lado, recorda-nos sempre a morte, convidando-nos ao realismo e à sabedoria; mas, por outro lado, ela nos conduz sobretudo a acolher e viver a novidade inesperada de que a fé cristã liberta da realidade da própria morte.

O homem é pó e ao pó voltará, mas é pó precioso aos olhos de Deus, porque Deus criou o homem destinando-o à imortalidade. Assim, a fórmula litúrgica “Lembra-te de que és pó e ao pó hás de voltar” encontra a plenitude do seu significado em referência ao novo Adão, Cristo. Também o Senhor Jesus quis livremente compartilhar com cada homem o destino da fragilidade, em particular através da sua morte na cruz; mas precisamente esta morte, repleta do seu amor pelo Pai e pela humanidade, foi o caminho para a ressurreição gloriosa, através da qual Cristo se converteu em fonte de uma graça dada àqueles que creem n’Ele e se tornam partícipes da mesma vida divina. Esta vida que não terá fim já está presente na fase terrena da nossa existência, mas será levada a cumprimento após a “ressurreição da carne”. O pequeno gesto da imposição das cinzas nos revela a singular riqueza do seu significado: é um convite a percorrer o tempo da Quaresma como um mergulho mais consciente e mais intenso no mistério pascal de Cristo, em sua morte e sua ressurreição, mediante a participação na Eucaristia e na vida de caridade, que nasce da Eucaristia e nela encontra seu cumprimento. Com a imposição das cinzas, renovamos nosso compromisso de seguir Jesus, de deixar-nos transformar pelo seu mistério pascal, para vencer o mal e fazer o bem, para fazer morrer nosso “homem velho”, ligado ao pecado, e fazer nascer o “homem novo”, transformado pela graça de Deus.

Queridos amigos: enquanto nos apressamos para empreender o austero caminho quaresmal, queremos invocar com particular confiança a proteção de Nossa Senhora. Que Ela, a primeira que acreditou em Cristo, seja quem nos acompanhe nestes quarenta dias de intensa oração e de sincera penitência, para chegar a celebrar, purificados e completamente renovados na mente e no espírito, o grande mistério da Páscoa do seu Filho.

[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs:

Hoje tem início o caminho da quaresma que nos conduzirá à alegria da Páscoa do Senhor. Recebendo as cinzas sobre a cabeça, renovamos o nosso compromisso de seguir Jesus, de nos deixarmos transformar pelo seu mistério pascal para vencer o mal e fazer o bem, para morrer para o nosso “homem velho” ligado ao pecado e fazer nascer o “homem novo” transformado pela graça de Deus.

Saúdo com particular afeto o grupo de fiéis do Patriarcado de Lisboa, peregrinos com o seu bem-amado Pastor, Cardeal Dom José Policarpo, em romaria de fé e gratidão pelas sendas do Venerável Servo de Deus Papa João Paulo II, que vos conquistou para Cristo, no Parque Eduardo VII da vossa cidade, há 28 anos. Ver-vos hoje aqui traz à mente aquele seu último pensamento para os jovens: “Andei à vossa procura. Agora viestes ter comigo. Eu vos agradeço”. Queria-vos a todos com Cristo. Que este nosso encontro suscite em vós e em todos peregrinos presentes de língua portuguesa, com suas famílias e comunidades cristãs, uma renovada vitalidade espiritual na fiel e generosa adesão a Cristo e à Igreja. Olhai o futuro com esperança e não vos canseis de trabalhar na vinha do Senhor. Uma santa Quaresma para todos!

[Tradução: Aline Banchieri
©Libreria Editrice Vaticana]

por Papa Bento XVI

quarta-feira, 16 de março de 2011

Tempo de Conversão

Esse é o tempo da liturgia, onde a Igreja nos exorta à conversão. É um tempo de preparação para a festa ápice do cristianismo: a Ressurreição de Jesus Cristo, comemorada no Domingo de Páscoa.

A palavra vem do latim, que significa "quadragésima", ou seja, são quarenta dias antecedentes à festa da Páscoa, cujo período começa na quarta-feira de cinzas e se estende até a quarta-feira da Semana Santa. Nesse tempo a Igreja nos conduz a uma reflexão mais intensa e a uma conversão espiritual, baseadas na proximidade de Cristo, através de seus prodígios e milagres realizados em nosso meio.

Todas as religiões têm períodos voltados à reflexão, eles fazem parte da disciplina religiosa. A essencialidade de um espírito voltado às atitudes santas nos dá um maior contato com o divino, introduzindo-nos ao incomensurável mistério da ressurreição do Cristo Vivo, proporcionando simbolicamente o renascer com Ele. Daí o sentido de voltar-se para a espiritualidade e para a conversão.

No que se refere ao calendário litúrgico, consta que cada doutrina religiosa tem o seu específico para seguir. Na liturgia da Igreja católica, os vários tempos litúrgicos são identificados pelas cores. Podemos presenciá-las nos vários adornos da igreja: na toalha do altar, na coberta do ambão, nos enfeites decorativos... e, principalmente, na vestimenta presbiteral. A cor representada no Tempo da Quaresma é o roxo, em sinal de luto e penitência.

Sabemos que a Bíblia possui uma linguagem alusiva, o que nos faz refletir sobre os diversos significados do mistério divino; por isso, o tempo de duração da Quaresma está baseado no simbolismo desse número, como Escritura Sagrada nos apresenta. Há, portanto, uma verossimilhança com os quarenta dias do dilúvio; os quarenta anos da peregrinação do povo judeu pelo deserto; os quarenta dias de Moisés e Elias na montanha, à espera das Tábuas da Lei; os quarenta dias que Jesus passou no deserto antes de começar a sua vida pública, entre outros. São fatos muito importantes que contribuem para a fecundidade de um preparar-se para uma nova caminhada.

No Evangelho de Mateus (Mt 6, 1-6.16-18), vemos que Deus nos exorta a vivermos três grandes propósitos de santidade: a caridade, a oração e o jejum como forma de penitência. Podemos dizer que, a partir desses três pontos, começa a nossa meta de conversão e preparação. Porém, só se faz verdadeira, quando, ambos, forem praticados com a pureza de coração. Cristo, no entanto, vai mais além; Ele nos convida a vivermos isso, não só na Quaresma, mas em todos os momentos de nossa vida, a fim de obtermos uma busca constante do Reino de Deus.

A oração é o ápice de todo o processo, é através dela que vamos estabelecer um contato mais íntimo com Deus, mostrando nossa abertura de coração. Ainda a caridade e a penitência estão intimamente ligadas, porque se baseiam em um mesmo princípio - a humildade - como nos mostra o Evangelho: "Quando deres esmola não toques a trombeta diante de ti como fazem os hipócritas para serem louvados pelos homens. Quando jejuardes não tomeis um ar triste como os hipócritas, que mostram um semblante abatido para manifestar aos homens o seu jejum" (Mt 6,2.16). Esses três desafios completam-se no momento em que damos o primeiro passo para sua realização e, são cruciais para obtermos uma perfeita comunhão com a espiritualidade.

Quanto à prática do jejum na Quaresma, é obrigatória a todos os cristãos batizados; na quarta-feira de cinzas e na sexta-feira santa, para pessoas com idade entre 18 e 60 anos. Porém, há uma abertura, para aqueles que não têm a possibilidade de realizá-lo nesses dias, de ser feito em outros dias, mediante a necessidade de cada um. É importante ressaltar que a prática do jejum significa um desapego, mesmo que mínimo, de algo que para nós é importante; ao mesmo tempo em que nos exorta à prática da caridade, pois com isso, podemos viver um pouco da realidade daqueles mais necessitados.

Mediante tudo isso, só podemos louvar e agradecer ao Deus da vida, porque sempre nos proporciona oportunidades especiais, para uma maior proximidade com Ele. É o Senhor Vivo, que permanece entre nós, tornando-nos membros de uma grande aliança de amor e reconciliação. Aproveitemos toda a essência da Quaresma, para que assim possamos criar uma íntima comunhão com o Cristo Ressuscitado.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Interpretação Teológica da Quaresma

A quaresma prepara os cristãos para a celebração da maior data do ano litúrgico na qual se celebra a Páscoa na Ressurreição do Senhor, em 2011 dia 24 de abril. É. Por isto mesmo, um tempo privilegiado no qual através de uma busca ainda maior da própria elevação espiritual quem foi purificado nas águas batismais procura corresponder ao grande anelo de Cristo. Este, com efeito, como lembra São Paulo: “amou a Igreja e se entregou a si mesmo por ela, a fim de a santificar, purificando-a com o lavacro de água juntamente com a palavra para apresentar a si mesmo essa Igreja resplandecente de glória, sem mancha, nem ruga, sem coisa alguma semelhante para que seja santa e irrepreensível” (Ef 5,25-27). Donde, segundo o mesmo Apóstolo, o caráter batismal da quaresma: “Uma vez que ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas lá de cima, onde Cristo está sentado à direita de Deus” (Cl 3,1).

A Igreja é uma comunidade pascal, porque é batismal. O dom da vida nova colocada em cada um pela dileção divina, faz de quem foi batizado uma nova criatura, filho ou filha especial de Deus. É preciso, porém, que cada cristão se torne cotidianamente, na realidade vivida, aquilo que é nas profundezas de seu ser renovado por puro dom do Ser Supremo. Daí a razão pela qual o cristão é chamado a exprimir com uma vida de contínua conversão a passagem para uma existência que o torne sempre mais semelhante ao Redentor triunfante sobre o pecado e a morte. Esforço de fidelidade e crescimento cotidiano que deve marcar cada instante do existir de quem foi cristianizado. A Igreja promove então um tempo de revisão de vida, um retiro espiritual de quarenta dias. Trata-se de se consagrar com mais piedade ainda à oração, à reflexão e à metamorfose de vida. Esta mudança é preconizada no Apocalipse: “O justo faça a justiça e o santo santifique-se ainda mais (Ap 22,11). Eis porque durante o tempo quaresmal o essencial não é multiplicar as orações, mas fazê-las com mais fervor ainda, intensificando o pedido pela conversão dos pecadores, daqueles que não observam os mandamentos divinos, não realizando as promessas batismais. Preces ardentes para todos seguidores de Jesus vençam o espírito do mundo, apesar de viverem num clima de civilização do bem-estar e do consumismo. Cumpre, realmente, viver a quaresma numa dimensão individual e comunitária para que se possa comemorar com mais autenticidade e proveito a Páscoa do Senhor. Daí o espírito de penitência que envolve a quaresma que lembra o discurso da mortificação e da renúncia, da luta pela prática de todas as virtudes, de amor ao sacrifício. A penitência quaresmal visa não só estabelecer uma união mais íntima entre cada um e Deus pela abominação, pela repulsa a qualquer pecado, mas ainda pelo arrependimento das fraquezas cotidianas, das pequenas infidelidades e deslealdades entre o nosso eu e as exigências do amor de um Deus três vezes santo. Enfim, o contexto quaresmal leva cada um a retirar todo e qualquer obstáculo ao projeto divino de aperfeiçoamento pessoal perante sua grandeza infinita. É claro que o próprio Senhor quem ilumina e dá eficácia a todos estes bons propósitos, os quais se transformam em ações litúrgicas , ou seja, ação de Cristo e da Igreja em cada um de seus filhos. O documento do Concílio Vaticano II, Sacrosanctum Concilium, ressaltou com ênfase esta dupla índole quaresmal pela lembrança do batismo e o verdadeiro espírito penitencial para que o mistério pascal seja vivido em plenitude (SC 109.) Dentro destas reflexões a Campanha da Fraternidade leva a vivenciar e a assumir a dimensão comunitária e social da Quaresma, tendo como foco este ano a Fraternidade e a Vida do Planeta. É exatamente a ambição humana, o egoísmo, a falta de sensibilidade para com as maravilhas que Deus espalhou mundo todo que faz a criação gemer em dores de parto (Rm 8,22). Não pode o cristão ficar alheio ao problema das mudanças climáticas, devendo respeitar ao máximo o meio ambiente do lugar em que vive, o que supõe renúncia corajosa a tudo que pode causar qualquer tipo de poluição, inclusive a poluição sonora. Pequenas atitudes somadas ajudam a preservar o ar, a água, as plantas, os animais, a vida nesta terra. Tudo isto supõe também espírito de penitência, porque exige esforço e respeito ao próximo e a tudo que rodeia o cristão, agradecido às dádivas generosas do Criador de tudo.


Con. José Geraldo Vidigal
Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

A fé não é um produto a ser comprado

Em várias igrejas cristãs, mercê de uma catequese imediatista que privilegia o sentir, mais do que o estudar, o aprender e o compreender cresceram o número de pregadores que dicotomizam a fé entre o bem e o mal. Não há “pode ser” nem “talvez”. Trabalham com o certo e o absoluto. Tudo é anjo ou demônio, tudo é oito ou oitenta, tudo é Deus e anti-Deus. Entre São Paulo e Rio de Janeiro há pelo menos vinte cidades onde se pode morar com razoável conforto. Quem achasse que só se pode morar ou em São Paulo ou no Rio de Janeiro demonstraria incapacidade de assimilar a realidade.


São eles que em plena televisão ou congresso, quando apaga a luz atribui o fato ao inimigo, quando volta a acender após as preces que um deles comanda atribuem à volta a luz aos anjos. Recentemente um pregador olhou insistentemente o relógio de pulso que parecia não funcionar. Ao invés de ignorar o fato dramatizou.
Pôs a culpa no maligno, tirou o relógio do pulso e o jogou para os bastidores. O maligno estaria prejudicando sua pregação ao fazer parar o seu relógio de pulso. Outro atribuiu a epidemia da dengue ao demônio da dengue que comandava os mosquitos para levarem a doença aos lares. Solenemente expulsou-o do Brasil.
Os fatos se multiplicam e se repetem. Pior em tudo é que muitos que assim fazem estudaram teologia, mas resolveram praticar uma fé mágica que vê anjos onde não há e demônios onde nunca houve.

Supersimplificam a vida decidindo que o que prejudica os fiéis é do demônio e o que faz bem é dos anjos e do céu. Assim, o câncer é obra do demônio e a cura é obra do céu, exceto quando um deles fica enfermo. Aí, é provação do céu, porque o demônio não poderia ferir quem já é do Cristo.

Sua visão de Cristo foge à teologia num flagrante sinal de que não estudaram a matéria. Garantem que têm visões e revelações especiais e veiculam isso pela imprensa. Garantem curas que, não verificadas ficam por isso mesmo. E houve aquele que disse que somos cristãos porque somos filhos do Cristo. Disse também que amor filia é o mesmo que amor filial. Como ninguém contesta, tais pregações prosseguem.

Um dizia que o rock não pode ser musica cristã porque é som do demônio, outro afirmava que determinada canção muito cantada entre católico, se tocada de trás para frente era um louvor a satanás. E houve aquele que garantiu que Maria não tem poder nenhum porque ela está dormindo à espera da ressurreição, mas que seu pregador preferido opera milagres com um simples toque. Aleluia! O pregador daquela igreja está salvo e tem mais poder do que a mãe de Jesus que está morta e ainda não chegou ao céu! A conclusão é óbvia: para ele Jesus tem poder só na terra, mas não tem depois da morte porque é incapaz de levar até a mãe dele para o céu!  Um trecho de Paulo lhe garante que o céu só se abrirá no ultimo dia da humanidade. Esqueceu os outros trechos da mesma Bíblia que falam de salvação imediata e que dizem que Jesus tem todo o poder no céu e na terra…

É claro que o fiel que vê alguém jogar fora óculos, cadeira de rodas e muletas ao som de uma prece escolherá esta igreja, e não a outra na qual o pegador manda pensar e diz que o milagre não tem hora nem lugar marcado para acontecer.  Entre o milagre que pode acontecer, mas não se sabe quando porque é Deus quem decide operar e aquele que garantidamente acontece no culto das 20h e no do sábado, o fiel que busca resultado vai lá onde milagres acontecem ao comando de um pegador poderoso em obras e palavras.
O mundo sempre escolheu o imediato. Esperar é virtude que poucos cultivam. Também não esperam pelo céu. Porque sentar-se à espera de uma refeição que demoraria 30 minutos se ele pode encomendar um prato feito em dois ou três?

A fé do prato feito, imediata tomou conta de inúmeras igrejas. Do restaurante de comida boa, mas cujas refeições demoram, muitos mudam para o restaurante ao lado que servem na hora comida quentinha. Quem serve mais depressa ganha a freguesia. Exceto quando a freguesia descobre o valor do diálogo à mesa e sabe que refeição não é só questão de comer e saciar-se. Pode ser ágape! Mais do que comer é estar juntos!
Religião deveria ser ágape e não fast food! A vida não deveria ser fast food. Para a pressa dos nossos dias inventaram igrejas com milagres e curas garantidas, rápidas e com dia e hora marcados.  Os fiéis vão lá onde se fala o que desejam ouvir, se faz o que desejam ver e aceitam pagar por isso porque é religião que enche os olhos.

Vitrais, imagens e paredes em catequese visual não lhes dizem muita coisa. O que os convence é o gesto dramático do irmão cheio de poder que derruba um demônio, faz um coxo andar e um mudo falar. Estes sinais os convencem. O sinal da cruz, uma cruz na parede, uma pintura de Jesus perdoando nada lhes diz. A fé dramática encanta mais do que a fé kerigmática.

Mas quem vai dizer isso às massas que, no dizer de Jean Baubrillard no seu livro sobre o fim do social e o surgimento das massas (Á Sombra das Maiorias Silenciosas) e de Zygmunt Bauman no seu livro sobre a transformação das pessoas em mercadoria (Vida Para Consumo) fala da perda de sentido e de referências e da compra e da venda de mensagens num mundo habitado por consumidores que descobriram também a religião de consumo. Numa esquina compram em dois minutos uma refeição já pronta e à sua espera, numa outra entram numa igreja e em poucos minutos presenciam um milagre ou uma expulsão de demônios. É a fé urgente a serviço da vida urgente.

Pregadores urgentes detectam em poucos minutos um anjo ou um demônio e acham uma resposta urgente garantindo que aquela resposta mudará a vida do fiel que adquirir aquela mensagem ou ir lá ouvir aquela pregação.

Criamos um mundo imediato de sapatos, roupas e comida prontos. Basta experimentar e pagar. O mundo ficou bem mais fácil. Como não poderia ser diferente alguém descobriu a religião com resposta rápida e garantida sem que voe precise aprender catecismo ou ler a Bíblia. Peque aquele trecho e pague os que o oferecem a você quando você precisar. Pronto! Problema resolvido. Semana que vem terá mais uma rodada de curas e milagres. Tiraram a decisão das mãos de Deus. Eles urgem com Deus, exortam e arrancam o milagre com suas preces intensas. Até publicam livros e panfletos de orações poderosas e infalíveis.

Ao fiel que entende que a vida e a fé não funcionam desta forma respondem que ele não tem fé, porque a Deus nada é impossível e para quem crê não existem barreiras.

E não faltam os palestristas que classificam a fé como produto. O fiel tem uma necessidade e o pregador tem uma resposta e uma solução, Vai ao livro ou conta uma história que anima o fiel a esperar pelo milagre.

Uma coisa, porém é vender objetos que ajudem a estudar melhor e aprofundar a nossa fé e outra garantir que aquele objeto perfumado ou trazido de Roma ou de Jerusalém e aquele óleo com gotas de óleo da Terra Santa tem mais chance de faze ro milagre acontecer!

Perguntei a uma senhora jovem que falava das maravilhas do rosário perfumado que trouxera de Jerusalém, que diferença havia entre manipular aquelas contas e as de outro rosário brasileiro. A resposta dela foi digna de um livro de Bauman ou de Baudrillard. Disse que o que valia não era o sentido, mas o sentimento. Este, sim é a única coisa verdadeira da vida! Pedi licença e revidei dizendo que o rapaz que diante da multidão acabara de matar a namorada refém, se governara pelo seu sentimento e não pelo sentido do seu ato!

Ela perguntou onde eu estudara!… Nos mesmos livros que seu pregador preferido também estudara! Mas optei por anunciar uma fé que não tem respostas tão urgentes nem tão mercadológicas.

A dimensão mercadológica da fé assusta! Olhe as obras, ouça os apelos, calcule o rio de dinheiro que passa pelas igrejas, pergunte aonde vai tudo isso e depois reflita sobre o produto que ajuda a fé e sobre a fé que se vale do produto! O acento revelará a igreja e o pregador!


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por
Padre Zezinho, SCJ

domingo, 13 de março de 2011

Evangelho do 1º Domingo da Quaresma

 
Evangelho segundo S. Mateus 4,1-11.


Então, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo.
Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome.
O tentador aproximou-se e disse-lhe: "Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães."
Respondeu-lhe Jesus: "Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus."Então, o diabo conduziu o à cidade santa e, colocando o sobre o pináculo do templo, disse-lhe: "Se Tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito: Dará a teu respeito ordens aos seus anjos; eles suster-te-ão nas suas mãos para que os teus pés não se firam nalguma pedra."
Disse-lhe Jesus: "Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus!"
Em seguida, o diabo conduziu-o a um monte muito alto e, mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória, disse-lhe: "Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares."
Respondeu-lhe Jesus: "Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto."
Então, o diabo deixou-o e chegaram os anjos e serviram-no.

Homilia do 1º Domingo da Quaresma - A 1ª Tentação (Adão e Jesus)

 
 O primeiro Livro da Sagrada Escritura nos fala que Deus havia dito que de uma árvore específica o homem não deveria comer. E o homem desobedeceu. Por meio de um homem veio o pecado ao mundo, como nos fala a segunda leitura! O Evengelho coloca Jesus diante do Tentador e o início do Evangelho diz que Ele foi conduzido pelo Espírito para ser tentado pelo diabo. Parece um tanto estranho ler que o Espírito conduziu Jesus para o lugar da tentação. Mas é justamente nesta condução que se encontra o coração de toda missão de Jesus porque é preciso que o Filho de Deus refaça o caminho de toda a humanidade, do povo de Deus no deserto para vencer o antigo inimigo. É preciso que Jesus entre onde o homem se perdeu, vença quem aprisionou o homem e lhe conceda a liberdade. Com Jesus no deserto estamos fazendo a experiência de Israel durante o êxodo, tendo Moisés como guia: “lembrarás de toda o caminho que o Senhor teu Deus te fez percorrer durante quarenta anos no deserto, afim de fazer-te experimentar a pobreza; colocando-te à prova e assim conhecer o que tens no coração e saber se tu observarias ou não seus mandamentos. Ele te fez viver a pobreza, Ele te fez ter fome e te deu a comer o maná que nem tu, nem teus pais conheciam para levar-te a reconhecer que o homem não vive só de pão, mas que ele vive de toda palavra que sai da boca de Deus”. Dt 8.
 
Quando Jesus responde ao demônio ele nos mostra o caminho da vitória sobre as forças do mal. Quem não se aproxima da Palavra de Deus, não terá como enfrentar o mal, será presa fácil, como um rato que cai em uma toca de serpente. A Palavra de Deus é nosso escudo contra o mal, é nossa luz no escuro do mundo e o alimento que nos garante a felicidade. Por conseguinte, todo aquele que se alimenta da palavra de Cristo já não necessita de alimento terreno. Porque quem se renova com o pão do Senhor não pode desejar o pão deste mundo. Efetivamente, o Senhor tem o Seu próprio pão, ou melhor, o Salvador é Ele próprio pão, como nos ensina com estas palavras: "Eu sou o pão que desceu do Céu" (Jo 6, 41). É a este pão que o salmo chama "o pão que lhe robustece as forças" (Sl 103, 15).
 
Que me importa o pão que oferece o diabo, quando tenho o pão em que comungo com Cristo? Que me importa o alimento por causa do qual o primeiro homem perdeu o Paraíso, Esaú o direito de primogenitura (Gn 25, 29ss.), que designou Judas Iscariotes como traidor (Jo 13, 26ss.)? Com efeito, Adão perdeu o Paraíso devido ao alimento, Esaú perdeu o seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas, e Judas renunciou à sua condição de apóstolo por um punhado de moedas; porque, no momento em que o tomou, deixou de ser apóstolo para se tornar traidor. O alimento que devemos tomar é aquele que abre o caminho ao Salvador, não ao diabo, o que transforma quem o toma em proclamador da fé e não em traidor. O Senhor tem razão em dizer, neste tempo de jejum, que é o Verbo de Deus que alimenta, para nos ensinar que não devemos viver os nossos jejuns preocupados com o mundo, mas lendo os textos sagrados. Com efeito, o que se alimenta das Escrituras esquece a fome do corpo; o que se alimenta do Verbo celestial esquece a fome. Eis o alimento que alimenta a alma e alivia o faminto [...], que confere a vida eterna e afasta de nós as armadilhas das tentações do diabo. A leitura dos textos sagrados é vida, como afirma o Senhor: "As palavras que vos disse são espírito e são vida" (Jo 6, 63).